Fundo do mar
No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.
Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, Portugal, 6 de novembro de 1919 – Lisboa, Portugal, 2 de Julho de 2004). In “Coral e outros poemas”. Seleção e apresentação de Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2018
A ruiva
Narciso
Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço…
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!
Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!
Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:
Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
… Lá no fundo do poço em que me espelho!
José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira (Vila do Conde, Portugal, 17 de setembro de 1901 — Vila do Conde, Portugal, 22 de dezembro de 1969)
O que?
Carta aleatória
Escrevo-lhe cara amada dada à divagações esparsas durante o tempo em que Nossa Senhora da Aparecida do Norte do Paraná afirmou que a menina dos olhos d’água encontrou o prazer em ser aquilo que simplesmente pode porque pode do amor e dos casos mais loucos ocorridos numa viagem como essa, tão fantástica através do tempo e atrás do conhecimento.
Não pretendo o infinito
Não pretendo o infinito: Temos que fixar o tempo no presente
Por incrível que pareça um braço não é um risco perdido num espaço infinito de situações.
8.2.82
(Vide rabisco acima)
Caca caramba

Caca caramba, pintada em tinta acrílica sobre papel, de tamanho 21 x 29 cm e feita em 16 de maio de 1999, pertence à coleção de Carlos Alberto Mendes da Galeria Buenos Ayres, casa de leilões e comércio de obras de arte, localizada em Alphaville, Barueri – SP.
Os meus hai-cais
Silêncio
Uma tosse rouca,
Lã mole. O “store” que bole,
A noite opaca e oca.
*
Mocidade
Do beiral da casa
(ó telhas novas, vermelhas!)
vai-se embora uma asa.
*
O poeta
Caçador de estrelas.
Chorou: seu olhar voltou
com tantas! Vem vê-las!
*
Meio-dia
Sombras redondinhas
Soldados de pau fincados
sobre rodelinhas.
*
Outono
Sistema nervoso,
que eu vi, da folha sorvida
pelo chão poroso.
*
Vento de maio
Risco branco e teso
que eu traço a giz, quando passo.
Meu cigarro aceso.
Guilherme de Almeida (Campinas, São Paulo, 24 de julho de 1890 — São Paulo, 11 de julho de 1969). Alguns de seus hai-kais extraídos do livro “Poesia Vária”, São Paulo, 23 de fevereiro de 1937