Arte-final
Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.
O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.
Uma coisa é a letra,
e outra o ato,
quem toma uma por outra
confunde e mente.
Affonso Romano de Sant’Anna (Belo Horizonte, 27 de março de 1937 – Rio de Janeiro, 4 de março de 2025)
Excel e pastel
Versa Kishi 1
sub
te ver
sivo
***
se brilha teu corpo
num pouco de luz
já não sinto tão escura
a dor que se mistura
N. T. Kishi. In “Amo teu oxigênio”
Meu coração está contigo
Amar-amaro

porque amou por que amou
se sabia
p r o i b i d o p a s s e a r s e n t i m e n t o s
ternos ou desesperados
nesse museu do pardo indiferente
me diga: mas por que
amar sofrer talvez como se morre
de varíola voluntária vágula evidente?
ah poeque amou
e se queimou
todo por dentro por fora nos cantos ecos
lúgubres de você mesm(o,a)
irm(ã,o) retrato espetáculo por que amou?
se era para
ou era por
como se entretanto todavia
toda via mas toda vida
é indignação do achado e aguda espotejação
da carne do conhecimento, ora veja
permita cavalheir(o,a)
amig(o,a) me releve
este malestar
cantarino escarninho piedoso
este querer consolar sem muita convicção
o que é inconsolável de ofício
a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima
a vida também
tudo também
mas o amor car(o,a) colega este não consola nunca de nuncarás.
Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). In “Lição de coisas”
Luiza, e amigas, no rio Carrasco do Pinto – Piauí
Perdendo a direção
Eixo do x
Eu ando de ônibus
Não sei o que sinto
Mais sei pra onde vou
Eu corro na praia
Não sei o que vejo
Mais sei onde estou
Eu pinto um quadro
Não sei o que é
Mais sei o que faço
Eu caminho na estrada
Não reparo que acaba
Mais sei porque finda