Camponesa/ Campesina

Camponesa

Nos sulcos, corpo de moreno anseio,
és como um ramo que na terra chega.
Volta teus olhos, olha nos teus seios,
são duas sementes ácidas e cegas.

Tua carne é terra que será madura
quando o outono as mãos for te oferecer,
e o sulco que será tua sepultura
tremerá, tremerá, um humano ser,

ao receber tuas carnes e teus ossos

– rosas com polpa de rosas de cal:
rosas que aos primeiros beijos nossos
vibraram com um cálice de cristal -.

A palavra, de que pleno conceito
será teu corpo? Não se vai conhecer!
Torna teus olhos ternos, olha os seios,
talvez não chegarás nunca a florescer.

§

Campesina

Entre los surcos tu cuerpo moreno
es un racimo que a la tierra llega.
Torna los ojos, mírate los senos,
son dos semillas ácidas y ciegas.

Tu carne es tierra que será madura
cuando el otoño te tienda las manos,
y el surco que será tu sepultura
temblará, temblará, como un humano

al recibir tus carnes y tus huesos

– rosas de pulpa con rosas de cal:
rosas que en el primero de los besos
vibraron como un vaso de cristal -.

La palabra de qué concepto pleno
será tu cuerpo? No lo he de saber!
Torna los ojos, mírate los senos,
tal vez no alcanzarás a florecer.

Pablo Neruda (Parral, Chile, 12 de julho de 1904 — Santiago, Chile, 23 de setembro de 1973). In “Crepusculário”. Edição Bilíngue. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2011. (Tradução de José Eduardo Degrazia)

Dois artistas do Porão da Pontes: San Bertini e Cirton Genaro

O Porão da Pontes, espaço idealizado pelos curadores Danilo Blanco, Fernando Zelman e Luis Castañón, expôs em finais de 2010 alguns artistas consagrados e talentos emergentes da arte contemporânea brasileira nas mostras “P” e “Bicho”. Desses artistas destaco dois trabalhos que gostei:

San Bertini – “Classificados, empregos”

Cirton Genaro – “Fim de tarde”

A D. Ângela

Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

Gregório de Matos (Salvador, Bahia, 23 de dezembro de 1636 – Recife, Pernambuco, 26 de novembro de 1696)

Amor

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!
Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!

Álvares de Azevedo (São Paulo, 12 de setembro de 1831 — Rio de Janeiro, 25 de abril de 1852)

Canto primo

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita.

Canto primeiro (trecho inicial)

Em meio do caminho desta vida
Achei-me um dia numa selva escura,
Muito longe da senda já perdida.

Dante Alighieri (Florença, Itália, entre 21 de maio e 20 de junho de 1265 – Ravena, Itália, 13 ou 14 de setembro de 1321). In “A divina comédia, o inferno”. São Paulo: Cia Brasil Editora, 1947. (Tradução de Domingos Ennes)