Gravata colorida

Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada…

Solano Trindade (Recife, Pernambuco, 24 de julho de 1908 — Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 1974). In “O poeta do povo”

Patricia Helney: Galo, Me encanta o olhar ver o amor transbordar! e Ellen e a Mel

“Eternize seu pet, fale comigo!”

Patrícia Helney

Essa artista vem se destacando no panorama das artes plásticas com um vasto currículo com mais de 25 premiações nacionais e internacionais ao longo de 40 anos de exposições no Brasil e no mundo. Sua linguagem é da Arte Naïf, com a riqueza das cores e a simplicidade das histórias contadas em suas telas.

“Amo a vida, a arte, a música, a literatura, a dança e o meu maior tesouro é a minha família.”

Contatos:
www.facebook.com/profile.php?id=1430810241
www.instagram.com/patriciahelney
www.instagram.com/patriciahelney_aquarelas
artistahelney@gmail.com
WhatsApp: (67) 9 9995-8161

Esboço

Teus lábios inquietos
pelo meu corpo
acendiam astros…
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias…
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca…
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos…

Gilka Machado (Rio de Janeiro, 12 de março de 1893 — 10 de dezembro de 1980). In “Sublimação”, 1928

Dá-me as rosas

No campo em que eu repousar
Solitária e tenebrosa
Eu vos peço para adornar
O meu jazigo com as rosas

As flores são formosas
Aos olhos de um poeta
Dentre todas são as rosas
A minha flor predileta

Se a afeiçoares aos versos inocentes
Que deixo escritos aqui
E quiseres ofertar-me um presente
Dá-me as rosas que pedi.

Agradeço-lhe com fervor
Desde já o meu obrigado
Se me levares esta flor
No dia dos finados.

Carolina Maria de Jesus (Sacramento, Minas Gerais, 14 de março de 1914 – São Paulo, 13 de fevereiro de 1977). In “Antologia pessoal”. Organização José Carlos Sebe Bom Meihy. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996

Flores do mais

Devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais

Ana Cristina Cesar (Rio de Janeiro, 2 de junho de 1952 — 29 de outubro de 1983). In “Inéditos e dispersos”. Organização Armando Freitas Filho. São Paulo: Editora Ática/ IMS, 1999

Saudação a Palmares

Nos altos cerros erguido
Ninho d’águias atrevido,
Salve! – País do bandido!
Salve! – Pátria do jaguar!
Verde serra onde os palmares
– Como indianos cocares –
No azul dos colúmbios ares
Desfraldam-se em mole arfar! …

Salve! Região dos valentes
Onde os ecos estridentes
Mandam aos plainos trementes
Os gritos do caçador!
E ao longe os latidos soam…
E as trompas da caça atroam…
E os corvos negros revoam
Sobre o campo abrasador! …

Palmares! a ti meu grito!
A ti, barca de granito,
Que no soçobro infinito
Abriste a vela ao trovão.
E provocaste a rajada,
Solta a flâmula agitada
Aos uivos da marujada
Nas ondas da escravidão!

De bravos soberbo estádio,
Das liberdades paládio,
Pegaste o punho do gládio,
E olhaste rindo p’ra o val:
Descei de cada horizonte…
Senhores! Eis-me de fronte!
E riste… O riso de um monte!
E a ironia… de um chacal!…

Cantem Eunucos devassos
Dos reis os marmóreos paços;
E beijem os férreos laços,
Que não ousam sacudir…
Eu canto a beleza tua,
Caçadora seminua!…
Em cuja perna flutua
Ruiva a pele de um tapir.

Crioula! o teu seio escuro
Nunca deste ao beijo impuro!
Luzidio, firme, duro,
Guardaste p’ra um nobre amor.
Negra Diana selvagem,
Que escutas sob a ramagem
As vozes – que traz a aragem
Do teu rijo caçador! …

Salve, Amazona guerreira!
Que nas rochas da clareira,
– Aos urros da cachoeira –
Sabes bater e lutar…
Salve! – nos cerros erguido –
Ninho, onde em sono atrevido,
Dorme o condor… e o bandido!…
A liberdade… e o jaguar!

Fazenda Santa Isabel, agosto de 1870 (Os escravos)

Castro Alves (Curralinho, hoje cidade de Castro Alves, Bahia, 14 de março de 1847 — Salvador, Bahia, 6 de julho de 1871)