Olhar em nosso outono

liberto os olhos do livro
agora a claridade vulgar
a nossa vista embaça

foi-se o tempo de tocar com as mãos
como o livro, nos fechamos, imaginamos
ardente o gélido pretérito presente

fria esta tarde indiferente
muito não mais temos
tantos ausentes seremos
encolhidos aquietamos

assim vemos o vento
quando ele se veste
das coisas que varre
neste nosso outono

Edney Cielici Dias, in “Cartas da alteridade”, Selo Demônio Negro (https://bit.ly/4oqZ1bI)- Poeta devotado ao ofício da palavra, é doutor em ciência política, economista, jornalista e editor.

Relato de coisa muito antiga

“Foi no tempo em que as ruas de nossa cidade ainda tinham nomes de santos. A travessa Cônego Miguel, por exemplo, chamava-se Santo Antônio; a Serzedelo Corrêa era São Mateus; a Cipriano Santos, São João. A Senador Pinheiro não tinha nome de santo, mas chamava-se romanticamente Rua do Sol porque descia exatamente na direção onde, durante um certo tempo do ano, o sol nascia. Quem olhasse, manhãzinha, daqui de cima, tinha a exata impressão que a bola enorme do sol, durante alguns momentos, pousava sobre o leito da rua, lá em baixo. Era um quadro bonito, mas ninguém prestava atenção. Rua era para andar.

Foi no tempo em que essas ruas não tinham ainda a luz elétrica que têm hoje, mas toscos lampiões de querosene que quase nada iluminavam, quase nada clareavam. Tardinha, mal começava a escurecer, os empregados da Intendência percorriam as poucas ruas que tinham este privilégio. Abasteciam e depois acendiam. A criançada que morava por perto acompanhava a tarefa com um sorriso nos lábios, entre pulos e gritos, cada vez que uma luz aparecia. Os lampiões tinham uma luz mortiça e amarelada…”

Em 1999, um ano e sete meses antes de sua morte, Valdir Sarubbi concluiu o seu livro de memórias intitulado “Estórias Paralelas”. Dessa obra de 140 páginas seleciono o trecho acima do conto intitulado “Relato de coisa muito antiga”.

Gravura em metal do artista paraense Valdir Sarubbi e seu livro inédito – acervo família Sarubbi – edição póstuma

Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000)

Sinfonia noturna de Miró

Transcrito na Velha Remington na Luz…

Vi Miró
E Gaudi
Fiz me só
Só com ti
Nesse quadro
Dó ré mi

26/08/1988

Flavio Ribeiro de Oliveira, in 26/08/1988 – Possui graduação em Filosofia pela USP (1989), mestrado em Letras (Letras Clássicas) pela USP (1994) e doutorado em Letras (Letras Clássicas) pela USP (2001). Realizou pós-doutorado no Centre Léon Robin (Université Paris IV-Sorbonne / École Normale Supérieure / CNRS) (2008). Atualmente é professor doutor da Unicamp e coordenador de Centro de Estudos Clássicos do Instituto de Estudos da Linguagem dessa universidade.

Entreato 1

Escorrego entre o desejo e a verdade
na cidade exausta.
Ecos de sofrimento reverberam inaudíveis
nesta Terra de unguentos perdidos
e homens plausíveis.

Atravesso a velha praça decadente
onde gente natimorta aguarda:
olhos entreabertos como pus ou raiva,
jamais encontrarão a janela de seu quarto,
transparente e inviolável mansarda.

Como posso acalentar o pranto
enquanto um canto paulatino
ensurdece os sentidos?
Espasmos de volúpia degeneram o meu corpo,
cárcere da luta entre o prazer retido
e um furor exposto.

Tarda derradeiro um entreato frente ao espelho:
fazer fogo do que arde em segredo.

Luiz Ribeiro – Jornalista graduado pela Faculdade Cásper Líbero e mestre em Ciências pelo Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental da Unifesp. Escritor e editor, autor de livros infanto-juvenis e didáticos de educação emocional e social para ensino fundamental, ensino médio, EJA e famílias.

E bem, e o resto?

(…)

            E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me… A terra lhes seja leve! Vamos à “História dos Subúrbios”.

Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 – Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908). In “Dom Casmurro”