Poema essencialista

A madrugada de amor do primeiro homem
O retrato da minha mãe com um ano de idade
O filme descritivo do meu nascimento
A tarde da morte da última mulher
O desabamento das montanhas, o estancar dos rios
O descerrar das cortinas da eternidade
O encontro com Eva penteando os cabelos
O aperto de mão aos meus ascendentes
O fim da ideia de propriedade, carne e tempo
E a permanência no absoluto e no imutável.

Murilo Mendes (Juiz de Fora, Minas Gerais, 13 de maio de 1901 — Lisboa, Portugal, 13 de agosto de 1975)

Inércia

O poeta quer se locomover.
Para que bonde, navio, avião e zeppelin
Se já te encontrei e estás comigo?!
Para que,
Se tu és para mim o universo inteiro?!
Para que,
Se estamos juntos da cabeça aos pés?!

Ismael Nery (Belém, Pará, 9 de outubro de 1900 – Rio de Janeiro, 6 de abril de 1934) foi um pintor, desenhista, arquiteto, filósofo e poeta brasileiro de influência surrealista. Segundo Bernardo Lins Brandão, a sua poesia, assim como a de Murilo Mendes e a de Jorge de Lima, foram inspirados nos preceitos surrealistas e pela filosofia essencialista formulada pelo próprio Ismael nos anos 20

J’en ai vu plusieurs…

J’en ai vu un qui s’était assis sur le chapeau d’un autre
il était pâle
il tremblait
il attendait quelque chose… n’importe quoi…
la guerre… la fin du monde…
il lui était absolument impossible de faire un geste
ou de parler
et l’autre, l’autre qui cherchait ” son ” chapeau
était plus pâle encore
et lui aussi tremblait
et se répétait sans cesse
mon chapeau… mon chapeau…
et il avait envie de pleurer.
J’en ai vu un qui lisait les journaux
j’en ai vu un qui saluait le drapeau
j’en ai vu un qui était habillé de noir
il avait une montre
une chaîne de montre
un porte monnaie
la légion d’honneur
et un pince-nez.
J’en ai vu un qui tirait son enfant par la main
et qui criait…
j’en ai vu un avec un chien
j’en ai vu un avec une canne à épée
j’en ai vu un qui pleurait
j’en ai vu un qui entrait dans une église
j’en ai vu un autre qui en sortait…

Jacques Prévert (Neuilly-sur-Seine, Ilha de França, 4 de fevereiro de 1900 — Omonville-la-Petite, Baixa Normandia, 11 de abril de 1977) foi um poeta e roteirista francês. In “Paroles”, 1946

Copacabana 1945

I

As fichas finais do jogo
foram recolhidas; fecha-se
o cassino; abre-se em fogo

o coração que devora.
Vejo em vez de eternidade
no relógio minha hora.

E ser quiser vejo a tua.
Às cinco tinhas encontro
num cotovelo de rua.

As cigarras do verão
tiniam quando sugavas
teu uísque com sifão.

Às onze no Wunder Bar
por meio acaso encontravas
a mulher que anda no ar.

Às três no Copabacana
uma torpeza uterina
pestana contra pestana.

Às quatro e pouco saías,
comias um boi às cinco,
às seis e meia morrias.

Às duas ressuscitavas,
às cinco tinhas encontro
às sete continuavas.

II

A mensagem abortada
de Copacabana perde-se
na viração: não é nada.

Morre um homem na polícia.
Tantos casos. Não é nada:
os jornais dão a notícia.

Uma criança que come
restos na lata de lixo
não é nada: mata a fome.

Não é nada. A favela
pega fogo. Não é nada:
faz-se um samba para ela.

Um moço mata a família
e se mata. Não é nada:
poupa o drama à tua filha.

Uma menina estuprada.
Uma virgem cai do céu.
Nada. Copacabanada.

III

Dava um doce calafrio
no esmalte azul recortado
súbito à tarde um navio.

O mistério transparente
do navio que passava
é ter tornado presente:

por fantasia do fado
naquele tempo ao passar
já parecia passado.

Quando ela achava o caminho
na ponta do Arpoador
eu ficava mais sozinho.

Pois um homem-gaivota
segue um barco, mesmo quando
não lhe conhece a derrota.

Latitude, longitude,
compasso de meu exílio…
Um homem sempre se ilude.

E quando o mar sem navio
ficava, eu olhava para trás
e me embrulhava no Rio.

IV

Anoitecia em cristais,
em paz de pluma tornando
à dor de Minas Gerais.

A dor que dá mas devora
como um blues comercial
no carro, quando é a hora.

E quando à janela o cone
de sombra me abismava
eu ligava o telefone.

Esse aparelho surdia
da ramagem de meus brônquios,
negra liana, e subia

em tropismos machucados,
pelas calhas do silêncio,
pelos terraços pasmados,

pela traqueia das áreas,
como tromba de elefante
ou aranhas solitárias

articuladas ao fio
como língua de serpente
a vasculhar o vazio,

a buscar qualquer canal
de amor (ou fosse miragem!)
no deserto vertical.

V

Às vezes chegava a lua
no despudor deslumbrante
da mulher que chega nua.

A mulher transverberada
entornando-se amorosa
nas vagas da madrugada.

Algumas foram no peito
do casto lençol do céu
para o cosmo do teu leito.

VI

Copacabana, golfão
sexual: soma dois corpos
mas divide solidão.

VII

Pelas piscinas suspensas,
pelas gargantas dos galos,
pelas navalhas intensas,

pelas tardes comovidas,
pelos tamborins noturnos,
pelas pensões abatidas,

eu vou por onde vou; vou
pelas esquinas da treva:
Copacabana acabou.

Paulo Mendes Campos (Belo Horizonte, 28 de fevereiro de 1922 — Rio de Janeiro, 1 de julho de 1991). In “Testamento do Brasil”, 1966
Nota: Em 1945, vai ao Rio de Janeiro conhecer o poeta Pablo Neruda e decide mudar para a cidade. Ingressa na imprensa local, escrevendo crônicas, poemas e artigos sobre literatura para o Correio da Manhã, O Jornal e Diário Carioca.