A seca e o inverno
Na seca inclemente no nosso Nordeste
O sol é mais quente e o céu mais azul
E o povo se achando sem chão e sem veste
Viaja à procura das terras do Sul
Porém quando chove tudo é riso e festa
O campo e a floresta prometem fartura
Escutam-se as notas alegres e graves
Dos cantos das aves louvando a natura
Alegre esvoaça e gargalha o jacu
Apita a nambu e geme a juriti
E a brisa farfalha por entre os verdores
Beijando os primores do meu Cariri
De noite notamos as graças eternas
Nas lindas lanternas de mil vaga-lumes
Na copa da mata os ramos embalam
E as flores exalam suaves perfumes
Se o dia desponta vem nova alegria
A gente aprecia o mais lindo compasso
Além do balido das lindas ovelhas
Enxames de abelhas zumbindo no espaço
E o forte caboclo da sua palhoça
No rumo da roça de marcha apressada
Vai cheio de vida sorrindo e contente
Lançar a semente na terra molhada
Das mãos desse bravo caboclo roceiro
Fiel prazenteiro modesto e feliz
É que o ouro branco sai para o processo
Fazer o progresso do nosso país
Patativa do Assaré (Assaré, Ceará, 5 de março de 1909 — Assaré, Ceará, 8 de julho de 2002). Cordel
Rublo-negro
Eu sou neguinha?

Eu tava encostado, ali minha guitarra
No quadrado branco, vídeo, papelão
Eu era o enigma, uma interrogação
Olha que coisa mais que coisa à toa
Boa, boa, boa, boa, boa, boa
Eu tava com graça
Tava por acaso ali, não era nada
Bunda de mulata, muque de peão
Tava em Madureira, tava na Bahia
No Beaubourg, no Bronx, no Brás
E eu, e eu, e eu, e eu, e eu, e eu, e eu
A me perguntar: Eu sou neguinha?
Era uma mensagem, lia uma mensagem
Parece bobagem, mas não era não
Eu não decifrava, eu não conseguia
Mas aquilo ia e eu ia
E eu ia, e eu ia…
Eu me perguntava
Era um gesto hippie, um desenho estranho
Homens trabalhando, pare, contramão
E era uma alegria, era uma esperança
Era dança e dança, ou não, ou não
Ou não, ou não, ou não, ou não, ou não, ou não
Tava perguntado: Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu tava rezando ali, completamente
Um crente, uma lente, era uma visão
Totalmente terceiro sexo, totalmente terceiro mundo
Terceiro milênio, carne nua
Nua, nua, nua, nua, nua, nua, nua
Era tão gozado
Era um trio elétrico, era fantasia
Escola de samba na televisão
Cruz no fim do túnel, becos sem saída
E eu era a saída, melodia, meio-dia
Dia, dia, dia, dia, dia
Era o que dizia: Eu sou neguinha?
Mas via outras coisas, via o moço forte
E a mulher macia dentro da escuridão
Via o que é visível, via o que não via
O que a poesia e que a profecia não veem, mas veem
Veem, veem, veem, veem
É o que parecia
Que as coisas conversam coisas surpreendentes
Fatalmente erram, acham solução
E que o mesmo signo que eu tento ler e ser
É apenas um possível ou impossível em mim
Em mim, em mil, em mil, em mil
E a pergunta vinha: Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Eu sou neguinha?
Caetano Veloso (Santo Amaro, Bahia, 7 de agosto de 1942). Canção de 1987
Mesa redonda
Hipótese de Maio
Sobre a mesa o relógio
anuncia meu tempo
que se desfaz em crivo
de aflito pensamento.
De que jardins me evado
de que amores provenho
de que enredo impreciso
se armara o que estou sendo
entre meus dicionários
fragmentos de retratos
os rútilos canários
enfunadas cortinas.
Os amigos inquietos
o silêncio a aumentar
concêntrico, severo
em torno das conversas
além da ausência,
além dos constantes afetos.
Resíduos de passeios
em paisagens alheias
empinham-se em gavetas —
cartas de amor nos seus
macios envelopes
risadas e conchinhas
a voz que fala sempre
no fundo da sonata
diletantes poemas
todos concordemente
citando o Coração
ladeado de flores
zéfiros sorridentes
(e os sabia chorosos).
As gavetas estufam
o que nelas se havia
adquire vida própria
um sitiado encanto
e explusa da memória
de que participava
com escassa competência
eu, que leve o lembrava.
O conteúdo humano
desse ditoso espólio
palpita, e entretanto
— semicerrados olhos
agitar de cambraia —
invencível o sono
se engolfa na dolência.
Sono maior que o escuro
a corromper a luz
diuturna nostalgia
de um sonho, não sei mais
ao certo o que seria.
Coágulo sombrio
adensando-se em zona
fechada, onde me perco
neste mês-de-maria
pensando o que seria
de mim, no dissolvido
rumor que me povoa
sem conduzir à fala
da sempre poesia
sem revelar o muito
de amar que pretendia
antes de antes, não sei
ao certo o que seria.
Mas bem que perfazia
um circuito profundo
onde a primeira imagem
(início e ata finda)
que ainda se reflete
é a da jovem correndo
pela campina, soltos
cabelos, e as glicínias
a descer pelos ombros
prendendo-se na boca
primavera garrida
pelo azul florentino.
Na mão direita tinha
uma roseira viva
juritis entoavam
campestres ladainhas
e pela transparência
de sua carnação
via-se-lhe o coração
com um só nome gravado
a rubro, fulcro infenso.
Corria na campina
fantástica, e ainda
posso lembrar que em fuga
amava sempre, e ria.
Lélia Coelho Frota (Rio de Janeiro, 11 de julho de 1938 — Rio de Janeiro, 27 de maio de 2010)
Bate papo
Vô batê pá tú
Falou, é isso aí malandro
Tem que se ligar aí nesse som, tá sabendo
Eu vou bate pá tu, pá tu bate pá tua patota
Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê
Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê
Pá amanhã a pá não me dizer
Que eu não bati pá tu
Pá tu pode batê
O caso é esse
Dizem que falam que não sei o que
Tá pá pintá ou tá pá acontecer
É papo de altas transações
Deduração
Um cara louco que dançou com tudo
Entregação com dedo de veludo
Com quem não tenho grandes ligações
Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê
Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê
Pá amanhã a pá não me dizer
Que eu não bati pá tu
Pá tu pode batê
O caso é esse
Dizem que falam que não sei o que
Tá pá pintá ou tá pá acontecer
É papo de altas transações
Deduração
Um cara louco que dançou com tudo
Entregação com dedo de veludo
Com quem não tenho grandes ligações
Já tá falado, malandro
Aí, tu que tem que se ligar
É isso aí, falou, cadê?
Ô, malandro, cadê? Falô!
Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê
Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê
Pá amanhã a pá não me dizer
Que eu não bati pá tu
Pá tu pode batê
O caso é esse
Dizem que falam que não sei o que
Tá pá pintá ou tá pá acontecer
É papo de altas transações
Deduração
Um cara louco que dançou com tudo
Entregação com dedo de veludo
Com quem não tenho grandes ligações
Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê
Vô batê pa tu
O quê, qualé malandro?
Estou iscalizado, malandro
Eu vou bate pá tu, pá tu bate pá tua patota
O que que eu estou fazendo neste disco?
Malandro, ô, qualé?
Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu
Falô! Cadê, ô malandro, cadê?
Qualé, tá me tirando do lance, ô?
Qualé? Falô! É, é isso aí, falô!
Cadê a turma do quero-quero, malandro?
Ah, aah!
Arnaud Rodrigues (Serra Talhada, Pernambuco, 6 de dezembro de 1942 — Lajeado, Tocantins, 16 de fevereiro de 2010) / Chico Anísio (Maranguape, Ceará, 12 de abril de 1931 – Rio de Janeiro, 23 de março de 2012) / Orlandivo (Itajaí, Santa Catarina, 5 de agosto de 1937 – Rio de Janeiro, 8 de fevereiro de 2017). Canção interpretada por Baiano e Os Novos Caetanos
Têmpera
Temporais
Os que enfrentam temporais e continuam
quando tudo diz que não quando falta o céu e o chão continuam
quando o pouco se reduz
e se apaga toda a luz
ainda assim
os que querem saber mais quando faltam as respostas quando as feridas expostas não se curam.
Continuam na ausência de um sinal quando o bem se confunde com o mal e as coisas se misturam.
Aqueles que continuam
e olham pra dentro sabem
que sempre chega o momento
em que as águas se abrem.
Bruna Lombardi (Rio de Janeiro, 1 de agosto de 1952)