Aos nossos filhos
Perdoem a cara amarrada
Perdoem a falta de abraço
Perdoem a falta de espaço
Os dias eram assim
Perdoem por tantos perigos
Perdoem a falta de abrigo
Perdoem a falta de amigos
Os dias eram assim
Perdoem a falta de folhas
Perdoem a falta de ar
Perdoem a falta de escolha
Os dias eram assim
E quando passarem a limpo
E quando cortarem os laços
E quando soltarem os cintos
Façam a festa por mim
E quando largarem a mágoa
E quando lavarem a alma
E quando lavarem a água
Lavem os olhos por mim
Quando brotarem as flores
Quando crescerem as matas
Quando colherem os frutos
Digam o gosto pra mim
Digam o gosto pra mim
Ivan Lins (Rio de Janeiro, 16 de junho de 1945) / Vitor Martins (Ituverava, São Paulo, 22 de novembro de 1944). Canção brilhantemente interpretada por Elis Regina (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 17 de março de 1945 — São Paulo, 19 de janeiro de 1982)
Pele
Peleja de Manoel Riachão com o Diabo (Primeiras 3 páginas do cordel)
Riachão estava cantando
na cidade do Assu
quando apareceu um negro
da espécie de urubu
tinha a camisa de sola
e as calças de couro cru
Beiços grossos e virados
como a sola do chinelo
um olho muito encarnado
e o outro muito amarelo
esse chamou Riachão
para cantar um martelo
Riachão disse: eu não canto
com negro desconhecido
porque pode ser escravo
e andar aqui fugido
isso é da cauda a nambu
e entrada a negro enxerido
O negro – Sou livre como vento
a minha linhagem é nobre
sou um dos mais ilustrados
que o sol nesse mundo cobre
nasci dentro da grandeza
não sai de raça pobre
Riachão – Você nega porque quer
está conhecido demais
você anda aqui fugido
me diga que tempo faz?
se você não for cativo
obras desmentes sinais
O negro – Seja livre ou seja escravo
eu quero cantar martelo
afine sua viola
vamos entrar em duelo
só com a minha presença
O senhor está amarelo
Riachão – Vejo um vulto tão pequeno
que nem posso enxergar
julgo que nem é preciso
nem a viola afinar
pela ramagem da árvore
ver-se o fruto qu’ela dá
O negro – Riachão, isso é frase
de homem muito atrasado
porque são vistos fenômenos
que na terra tem se dado
uma cobra tão pequena
mata um boi agigantado
Riachão – Meu Riacho pela sêca
dá cheias descomunais
na correnteza das águas
descem grandes animais
Jiboias, sucurujubas
e monstruosos “jaguais”
O negro – O jaguar rende-me culto
a serpente a meus pés morre
no que chegar minha ira
só um poder o soccorre
digo ao rio: pare aí:
a água para e não corre
Riachão – Você não é Josué
que mandou o sol parar
e esse passou três dias
para guerra se acabar
nem Moisés com a vara
fez o mar também secar
O negro – Faça tudo o que quiser
minha força é sem limite
os feitos por mim obrados
não vejo homem que os cite
eu determino uma cousa
não há força que evite
Riachão – Salomão também fazia
o que queria fazer
por meio de mágica e química
quis novamente nascer
mas em vez do nascimento
conseguiu ele morrer
Leandro Gomes de Barros (Pombal, Paraíba, 19 de novembro de 1865 — Recife, Pernambuco, 4 de março de 1918). Foi um dos maiores poetas populares do Brasil, considerado o “Rei do Cordel”, que narrou o sertão, a seca, o cangaço, a fé e os costumes nordestinos em cerca de mil folhetos, deixando um legado fundamental para a literatura de cordel, com obras que exploram o drama, a crítica social e a religiosidade
Cordel recomendado via mensagem no Instagram pelo fotógrafo de rua, retratos e foto-documentário, escritor, dramaturgo e professor de história pernambucano Tiago da Silva Palma (@tiago_historiarte) um dia após nossa conversa na Bibli-Aspa.
Roda anel
Redescobrir
Como se fora a brincadeira de roda
Memória!
Jogo do trabalho na dança das mãos
Macias!
O suor dos corpos, na canção da vida
Histórias!
O suor da vida no calor de irmãos
Magia!
Como um animal que sabe da floresta
Memória!
Redescobrir o sal que está na própria pele
Macia!
Redescobrir o doce no lamber das línguas
Macias!
Redescobrir o gosto e o sabor da festa
Magia!
Vai o bicho homem fruto da semente
Memória!
Renascer da própria força, própria luz e fé
Memorias!
Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós
História!
Somos a semente, ato, mente e voz
Magia!
Não tenha medo meu menino povo
Memória!
Tudo principia na própria pessoa
Beleza!
Vai como a criança que não teme o tempo
Mistério!
Amor se fazer é tão prazer que é como fosse dor
Magia!
Como se fora a brincadeira de roda
Memória!
Jogo do trabalho na dança das mãos
Macias!
O suor dos corpos na canção da vida
Histórias!
O suor da vida no calor de irmãos
Magia!
Como se fora a brincadeira de roda
Memória!
Jogo do trabalho na dança das mãos
Macias!
O suor dos corpos na canção da vida
Histórias!
O suor da vida no calor de irmãos
Magia!
Como se fora a brincadeira de roda
Memória!
Jogo do trabalho na dança das mãos
Macias!
O suor dos corpos na canção da vida
Histórias!
O suor da vida no calor de irmãos
Magia!
Como se fora brincadeira de roda
Jogo do trabalho na dança das mãos
O suor dos corpos na canção da vida
O suor da vida no calor de irmãos
Como se fora brincadeira de roda
Jogo do trabalho na dança das mãos
O suor dos corpos na canção da vida
O suor da vida no calor de irmãos
Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, conhecido como Gonzaguinha (Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1945 – Renascença ou Marmeleiro, Paraná, 29 de abril de 1991). Brilhantemente interpretada por Elis Regina (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 17 de março de 1945 — São Paulo, 19 de janeiro de 1982) e coro
Evolução, João
De criança, preferia com as mãos; crescido, algo brotando; mistério e susto no personagem; o humor, qualidade de sempre e inspirado em Piet Mondrian, estudando. Tudo criado por João…
Cobra d’água
O sono das águas
Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…
João Guimarães Rosa (Cordisburgo, Minas Gerais, 27 de junho de 1908 – Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967)