Sorri quando a dor te torturar

Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios

Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos

Sorri vai mentindo a sua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz

Charles Chaplin (Londres, Reino Unido, 16 de abril de 1889 – Corsier-sur-Vevey, Suíça, 25 de dezembro de 1977)

Solo

Uma coisa em nós é rasa e profundamente igual.
Queremos ser felizes.
O mais grave dos homens,
se vir no prato um ovo de duas gemas,
ainda que de boca fechada, sorrirá.
Tudo guarda um sinal,
tudo é escritura, código, aviso,
voz que de outra maneira soa.
De seu lugar, o retrós, o albatroz
até o fim dos tempos falarão.
A borboleta, só de abrir e fechar as asas,
está falando.
Não se faz poesia apenas com palavras;
poemas, sim, mas quem precisa deles?

Adélia Prado (Divinópolis, Minas Gerais, 13 de dezembro de 1935). In “O jardim das oliveiras”, Editora Record, 2025

Naturezas mortas

Verde
O trote sonoro dos artilheiros passa sobre a geometria
Despojo-me
Em breve eu seria apenas de aço
Sem o esquadro da luz
Amarelo
Clarim de modernidade
O classificador americano
É tão seco e
Fresco
Quanto verdes os campos primaveris
Normandia
E a mesa do arquiteto
É assim rigorosamente bonita
Preto
Com um vidro de nanquim
E umas camisas azuis
Azul
Vermelho
Depois há também um litro, um litro de sensualidade
E esta grande novidade
Branco
Folhas de papel branco

Blaise Cendrars, pseudônimo de Frédéric Louis Sauser (La Chaux-de-Fonds, Suíça, 1 de setembro de 1887 — Paris, França, 21 de janeiro de 1961). A critica e curadora de arte Aracy Amaral (São Paulo, 22 de fevereiro de 1930) chama a atenção para o fato de Blaise Cendrars ser conhecido e estudado pelos modernistas já antes da Semana de Arte Moderna de 22, tendo Influenciado Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Luiz Aranha e, em particular, Oswald de Andrade, além de de ser fundamental na definição da pintura de Tarsila do Amaral

Forte de Orange, Itamaracá

A pedra bruta da guerra,
seu grão granítico, hirsuto,
foi toda sitiada por
erva-de-passarinho, musgo.
Junto da pedra que o tempo
rói, pingando como um pulso,
inroído, o metal canhão
parece eterno, absoluto.
Porém o pingar do tempo
pontual, penetra tudo;
se seu pulso não se sente,
bate sempre, e pontiagudo,
e a guerrilha vegetal
no seu infiltrar-se mudo,
conta com o tempo, suas gotas
contra o ferro inútil, viúvo.
E um dia os canhões de ferro,
sua tesão vã, dedos duros,
se renderão ante o tempo
e seu discurso, ou decurso:
ele fará, com seu pingo
inestancável e surdo,
que se abracem, se penetrem,
se possuam, ferro e musgo.

João Cabral de Melo Neto (Recife, Pernambuco, 9 de janeiro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1999). In “A escola das facas”, 1980

Poema recomendado via mensagem no Instagram pelo fotógrafo de rua, retratos e foto-documentário, escritor, dramaturgo e professor de história pernambucano Tiago da Silva Palma (@tiago_historiarte) um dia após nossa conversa na Bibli-Aspa.

Chegando o Natal e já vem raiando um novo ano…

Boas festas! Tenha um ótimo Natal e que o espírito natalino preencha seus dias de luz. E que o Ano Novo traga inspiração para grandes realizações, muita prosperidade e alegrias. Feliz 2026!

#artepopular #artepopularbrasileira #tota #antoniopascoalregis #natal #feliznatal #2026 #prospero2026 #galeriapontes #arte #artesol

Anniversarius, João

Hoje meu filho querido completa mais um ciclo: 20 primaveras. Parabéns João: Muita saúde, sucesso e paz! Um pouco depois de seu nascimento escrevi “Bunico”. Segue um trecho…

“(…)
Um séquito de aves na praça que meu pai gostava
E onde conheci tua mãe e comecei a sonhar contigo,
Te esperam para a comitiva que te seguirá.
O pio da mata ecoou no ventre da mãe Luiza e te acalentou.
O girino, o ovo, o feto, o bebê, o homem, o ser.
A mágica da vida e a eterna música do tempo.
No belo canto do curió e do uirapurú.
A Amazônia, o Pantanal, a mata ciliar do Paranapanema,
As curvas do pai Tietê, o céu de minha terra que é São Paulo
Que a todos recebeu e que é tua também.
As veredas de um João e o os Severinos de outro.
(…)
Um João para nos ajudar a nos redescobrir.
(…)”

Leia na íntegra: https://ematosinho.com.br/?p=472