O negro que fala de rios

(Para W. E. B. DuBois)

Conheci muitos rios:

Conheci rios velhos como o mundo, e mais velhos que o sangue correndo nas veias humanas.

Minha alma sulcou fundo como os rios.

Banhei no Eufrates quando as madrugadas eram jovens.
Fiz minha cabana perto do Congo, que me ninava para dormir.
Vi o Nilo, e ergui as pirâmides para poder contemplá-lo.
Ouvi o Mississippi cantar quando Abe Lincoln desceu para Nova Orleans, e vi suas dobras de lama ficarem douradas com o pôr do sol.
Conheci muitos rios:
Antigos e escuros rios.

Minha alma sulcou fundo como os rios.

Langston Hughes (Joplin, Missouri, Estados Unidos, 1 de fevereiro de 1902 – Nova Iorque, Estados Unidos, 22 de maio de 1967). “The negro speaks of rivers”. In “The weary blues”, 1926

Estrofes que me marcaram

“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.”

Poema de sete faces – Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)

§

“Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!”

Meus oito anos – Casimiro de Abreu (Barra de São João, Distrito de Casimiro de Abreu, Rio de Janeiro, 4 de janeiro de 1839 – Casimiro de Abreu, Rio de Janeiro, 18 de outubro de 1860)

§

“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.”

Motivo – Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1901 — Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1964)

§

“Eu hoje fiz um samba bem pra frente
Dizendo realmente o que é que eu acho

Eu acho que o meu samba é uma corrente
E coerentemente assino embaixo”

Corrente – Chico Buarque (Rio de Janeiro, 19 de junho de 1944)

§

“Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.”

Lua nova – Manuel Bandeira (Recife, Pernambuco, 19 de abril de 1886 — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968)

§

“Passarinho avuô
Foi s’imbora”

Alpendre – Oswald de Andrade (São Paulo, 11 de janeiro de 1890 — São Paulo, 22 de outubro de 1954)

§

“Deixo-as como estalactites em meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda…”

A palavra – Pablo Neruda (Parral, Chile, 12 de julho de 1904 — Santiago, Chile, 23 de setembro de 1973)

§

“No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida”

Ausência – Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913 – Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980)

§

“Do veludo de minha voz
Umas calças pretas mandarei fazer.
Farei uma blusa amarela
De três metros de entardecer.”

A blusa amarela – Vladimir Maiakovski (Baghdati, Império Russo, 19 de julho de 1893 — Moscou, Rússia, 14 de abril de 1930)

§

“Saxífraga é minha flor que rompe
as rochas. “

Uma espécie de canção – William Carlos Williams (Rutherford , Nova Jersey , Estados Unidos, 17 de setembro de 1883 — 4 de março de 1973)

Ah, 33 delícias de nosso português…

acácia
alguidar
alhures
amiúde
amora
caramba
circunstância
colapsar
cunhã
diadema
eclipse
etéreo
fac-símile
fogaréu
gorjeia
guirlanda
magnólia
mangaio
mormente
oiro
pendão
pirilampo
pitéu
pontiagudo
profícua
quiçá
repente
sagu
simbora
tiara
turmalina
uruca
zabumba

“E se elas vierem todas
Numa guirlanda de flechas
Defenderei
Defenderei
Defenderei”

Canção e calendário – Oswald de Andrade

Vindo de Bezerros – PE mais essa pérola dita por um saudoso xilogravurista e cordelista

Esse conhecido e admirado José contou em entrevista concedida à Edna Matosinho de Pontes em fevereiro de 2013 de onde vinha a sua inspiração para a confecção de suas famosas xilogravuras, e afirmou:

“Vem daqui mesmo do que eu vejo, do que eu sinto, do que eu penso. Do que acontece, das lenda, do folclore. O dia a dia do povo, a convivência, a tristeza, a alegria. Tudo isso dá cordel e dá também gravura”.

J. Borges (Bezerros – PE, 1935 – 2024) – José Francisco Borges, começou cedo pois aos oito anos já trabalhava na terra com o pai. Foi oleiro, confeccionou brinquedos artesanais e vendeu livros de cordel. Nos anos 50 José resolveu que iria escrever cordel e daí partiu para as xilogravuras. Dono de uma técnica própria de colorir as imagens, atendia pedidos para representar cotidiano do pobre, o cangaço, o amor, os castigos do céu, os mistérios, os milagres, os crimes, a corrupção, os folguedos populares, a religiosidade, a picardia, sempre ligados ao povo nordestino. Essa foto foi batida por Edna.

Veja mais essa pérola dita por esse pintor naïf e músico tão popular

Oriundo do nordeste, Vicente Ferreira, mais conhecido como “Seo Vicente” ou Ferreirinha”, em entrevista concedida à Edna Matosinho de Pontes em maio de 2008, quando perguntado “E o senhor aprendeu com quem (a pintar)?”, respondeu:

“Eu não tive professor, como eu digo, eu aprendi com os índios, observando os índios a se pintar uns aos outros.”

Vicente Ferreira (Baturité – CE, 1928 – Maceió – AL, 2012) – Vicente Ferreira de Lima nasceu no Ceará, mas estabeleceu-se em Maceió – AL e lá ganhou a vida como sanfoneiro, animando forrós pela periferia da cidade, trabalhou também em circo e na agricultura, lidando com a terra. Dividia o seu tempo entre a rede ferroviária e seu cavalete de pintura. A sua obra desperta a curiosidade por sua semelhança com o bordado, provavelmente sua fonte inconsciente de inspiração técnica. Foto divulgada pelo Instituto Internacional de Arte Naif – IIAN.

andrômaca

não conheci troia
ruínas a mais ruínas a menos
do outro lado do oceano
tudo o que aprendi foi nesse alfabeto moderno
eis o momento apoteótico minha obsessão
nossos despojos é troia
minhas amigas encurraladas
na mesa do chefe é troia
a jovem saco preto é troia
a jovem saco preto no rosto
festa de luxo é troia
as baratas roendo o cu
da guerrilheira comunista é troia
é troia meu companheiro baleado no rosto
é troia os corpos desovados no mangue
as lideranças perseguidas é troia
as vítimas de feminicídio é troia
os milicos os fascistas os tiranos
disparam todos contra troia
a filosofia o direito o ocidente
nascem da devastação de troia
agora você entende por que voltei?
não conheci troia mas a entrevejo esplêndida
nas carícias clandestinas durante os bombardeios
e gás de pimenta nas barricadas
nas clínicas de aborto nos abrigos
inusitados na desobediência
no canto sim no canto
eu não vou me entregar
você grita eu repito
através dos séculos
minha irmã
não há poemas para ti
nenhuma linha sobre cibele
onde perdemos o tino quando virou espetáculo
maldita literatura e seu panteão de vitórias
me abrace forte a explosão está próxima
ele há de vir

Luiza Romão (Ribeirão Preto, São Paulo, 1992). In “Também guardamos pedras aqui”, Editora Nós, 2021. Com esse livro foi vencedora do Prêmio Jabuti de Poesia, nesse mesmo ano de seu lançamento