Hipótese de maio

Sobre a mesa o relógio
anuncia meu tempo
que se desfaz em crivo
de aflito pensamento.
De que jardins me evado
de que amores provenho
de que enredo impreciso
se armara o que estou sendo
entre meus dicionários
fragmentos de retratos
os rútilos canários
enfunadas cortinas.
Os amigos inquietos
o silêncio a aumentar
concêntrico, severo
em torno das conversas
além da ausência,
além dos constantes afetos.
Resíduos de passeios
em paisagens alheias
empinham-se em gavetas —
cartas de amor nos seus
macios envelopes
risadas e conchinhas
a voz que fala sempre
no fundo da sonata
diletantes poemas
todos concordemente
citando o Coração
ladeado de flores
zéfiros sorridentes
(e os sabia chorosos).
As gavetas estufam
o que nelas se havia
adquire vida própria
um sitiado encanto
e explusa da memória
de que participava
com escassa competência
eu, que leve o lembrava.
O conteúdo humano
desse ditoso espólio
palpita, e entretanto
— semicerrados olhos
agitar de cambraia —

invencível o sono
se engolfa na dolência.
Sono maior que o escuro
a corromper a luz
diuturna nostalgia
de um sonho, não sei mais
ao certo o que seria.
Coágulo sombrio
adensando-se em zona
fechada, onde me perco
neste mês-de-maria
pensando o que seria
de mim, no dissolvido
rumor que me povoa
sem conduzir à fala
da sempre poesia
sem revelar o muito
de amar que pretendia
antes de antes, não sei
ao certo o que seria.
Mas bem que perfazia
um circuito profundo
onde a primeira imagem
(início e ata finda)
que ainda se reflete
é a da jovem correndo
pela campina, soltos
cabelos, e as glicínias
a descer pelos ombros
prendendo-se na boca
primavera garrida
pelo azul florentino.
Na mão direita tinha
uma roseira viva
juritis entoavam
campestres ladainhas
e pela transparência
de sua carnação
via-se-lhe o coração
com um só nome gravado
a rubro, fulcro infenso.
Corria na campina
fantástica, e ainda
posso lembrar que em fuga
amava sempre, e ria.

Lélia Coelho Frota (Rio de Janeiro, 11 de julho de 1938 — 27 de maio de 2010)

Vô batê pá tú

Falou, é isso aí malandro
Tem que se ligar aí nesse som, tá sabendo
Eu vou bate pá tu, pá tu bate pá tua patota

Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê

Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê

Pá amanhã a pá não me dizer
Que eu não bati pá tu
Pá tu pode batê

O caso é esse
Dizem que falam que não sei o que
Tá pá pintá ou tá pá acontecer
É papo de altas transações

Deduração
Um cara louco que dançou com tudo
Entregação com dedo de veludo
Com quem não tenho grandes ligações

Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê

Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê

Pá amanhã a pá não me dizer
Que eu não bati pá tu
Pá tu pode batê

O caso é esse
Dizem que falam que não sei o que
Tá pá pintá ou tá pá acontecer
É papo de altas transações

Deduração
Um cara louco que dançou com tudo
Entregação com dedo de veludo
Com quem não tenho grandes ligações

Já tá falado, malandro
Aí, tu que tem que se ligar
É isso aí, falou, cadê?
Ô, malandro, cadê? Falô!

Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê

Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê

Pá amanhã a pá não me dizer
Que eu não bati pá tu
Pá tu pode batê

O caso é esse
Dizem que falam que não sei o que
Tá pá pintá ou tá pá acontecer
É papo de altas transações

Deduração
Um cara louco que dançou com tudo
Entregação com dedo de veludo
Com quem não tenho grandes ligações

Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê

Vô batê pa tu
O quê, qualé malandro?
Estou iscalizado, malandro
Eu vou bate pá tu, pá tu bate pá tua patota

O que que eu estou fazendo neste disco?
Malandro, ô, qualé?

Vou batê pá tu bate pá tu
Pá tu batê
Vô batê pá tu, batê pá tu
Pá tu batê

Vô batê pá tu
Falô! Cadê, ô malandro, cadê?
Qualé, tá me tirando do lance, ô?
Qualé? Falô! É, é isso aí, falô!

Cadê a turma do quero-quero, malandro?
Ah, aah!

Arnaud Rodrigues (Serra Talhada, Pernambuco, 6 de dezembro de 1942 — Lajeado, Tocantins, 16 de fevereiro de 2010) / Chico Anísio (Maranguape, Ceará, 12 de abril de 1931 – Rio de Janeiro, 23 de março de 2012) / Orlandivo (Itajaí, Santa Catarina, 5 de agosto de 1937 – Rio de Janeiro, 8 de fevereiro de 2017). Canção interpretada por Baiano e Os Novos Caetanos

Temporais

Os que enfrentam temporais e continuam
quando tudo diz que não quando falta o céu e o chão continuam
quando o pouco se reduz
e se apaga toda a luz
ainda assim
os que querem saber mais quando faltam as respostas quando as feridas expostas não se curam.
Continuam na ausência de um sinal quando o bem se confunde com o mal e as coisas se misturam.
Aqueles que continuam
e olham pra dentro sabem
que sempre chega o momento
em que as águas se abrem.

Bruna Lombardi (Rio de Janeiro, 1 de agosto de 1952)

Dezenove, mulher

Agora aos dezenove transbordo
Paz aos que quiserem e liberdade
aos que lutarem como eu lutei

Passei pela purgação e agora
posso dizer aos quatro cantos
que sou uma mulher feita

Cozida pela vida e pelas pessoas
amigas que me cercam como
primos – irmãos nessa jornada

Ao futuro só prometo e ao passado
brindo por ter chegado até aqui:
Mais mulher e com amor para dar

Higienópolis, 20/11/08

Que és fonte nesta noite estrangeira

Nesta noite estrangeira,
aporto em teu leito
como quem chega de viagem
(a longa viagem da vida):
o bagaço dos músculos,
o cansaço dos séculos,
o espaço dos vínculos.
É o peso da paixão
que lança a âncora
no cais do teu ventre;
desembarco sorrateiro,
como um ladrão,
esgueiro-me nas sombras,
fujo à face da lua,
tal flauta sem som,
qual nauta sem sono.

Pulo no escuro,
feito um gato,
entre pé e areia
um abismo,
agarro-me a teus cabelos
(um salto abissal,
sem rede),
bebo um pântano sem fundo,
profundo.

Dentro de ti,
que és porto,
faz noite ainda
(o mar é mancha móvel,
teus seios, dois faróis).
A distância de léguas,
ocultas um bote
em conchas
(muito a caminhar
até os remos
de tuas pernas brancas)

Dentro de ti,
que és ilha e plana,
a mina verde
dos tesouros submersos;
e os sóis rubros
das fogueiras profanas.

Ato o massame firme
a teu travesseiro:
queimas asas de Ícaro,
derretes coração de cera.
Assim mergulho em teus lençóis
com o peito em brasa
e as mãos limpas
(lavadas dentro de ti,
que és vento e fonte).

José Nêumanne Pinto (Uiraúna, Paraíba, 18 de maio de 1951)