Autor: ematosinho
Ouço uma fonte
Ouço uma fonte
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.
É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.
É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.
É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.
É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.
É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!
Augusto Frederico Schmidt (Rio de Janeiro, 18 de abril de 1906 – 8 de fevereiro de 1965). In “Poesia completa: 1928-1965”. Introdução Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: Topbooks| Faculdade da Cidade, 1995. Nota: Por coincidência, no passado, eu havia escrito o poema “Sentado ouvindo a fonte”. Convido à leitura: http://ematosinho.com.br/?p=84
Aconteceu
Quero saber
Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender
Pablo Neruda (Parral, Chile, 12 de julho de 1904 — Santiago, Chile, 23 de setembro de 1973)
Dragão 2
A janela e o sol
“Deixa-me entrar, – dizia o sol – suspende
A cortina, soabre-te! Preciso
O íris trêmulo ver que o sonho acende
Em seu sereno virginal sorriso.
Dá-me uma fresta só do paraíso
Vedado, se o ser nele inteiro ofende…
E eu, como o eunuco, estúpido, indeciso,
Ver-lhe-ei o rosto que na sombra esplende.”
E, fechando-se mais, zelosa e firme,
Respondia a janela: “Tem-te, ousado!
Não te deixo passar! Eu, néscia, abrir-me!
E esta que dorme, sol, que não diria
Ao ver-te o olhar por trás do cortinado,
E ao ver-se a um tempo desnudada e fria?!”
Alberto de Oliveira (Saquarema, Rio de Janeiro, 28 de abril de 1857 — Niterói, Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 1937). In “Sonetos e poemas”, 1886
Gota a gota
Frases mais do que óbvias
Tirante o motorista e o cobrador tudo é passageiro.
Relógio que atrasa não adianta.
Só sei que nada sei.
O que se leva dessa vida é a vida que a gente leva.
Dias melhores virão…
De pensar morreu um burro.
Ter, tinha, acabou-se tudo e não sabia que você tinha…
Cauda de gato
Janeiro/ fevereiro – Calendário Philips 1980
Nem só a cav
idade da boca
Nem só a língua
Nem só os dentes
e os lábios
fazem a língua
Ouça
as mãos
tecendo a língua
e sua linguagem
É a língua
têxtil
O texto
que sai das
mãos
sem palavras
Décio Pignatari (Jundiaí, São Paulo, 20 de agosto de 1927 — São Paulo, 2 de dezembro de 2012). In “Poesia pois é poesia e poetc”. São Paulo: Editora Brasiliense, 1986