Ouço uma fonte
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.
É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.
É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.
É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.
É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.
É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!
Augusto Frederico Schmidt (Rio de Janeiro, 18 de abril de 1906 – Rio de Janeiro, 8 de fevereiro de 1965). In “Poesia completa: 1928-1965”. Introdução Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: Topbooks| Faculdade da Cidade, 1995. Nota: Por coincidência, no passado, eu havia escrito o poema “Sentado ouvindo a fonte”. Convido à leitura: http://ematosinho.com.br/?p=84