Árvores do Alentejo

Horas mortas… Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido… e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!
Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!
Árvores! Não choreis! Olhai e vede:

– Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca (Vila Viçosa, Portugal, 8 de dezembro de 1894 — Matosinhos, Portugal, 8 de dezembro de 1930)

Josué Montello: Citações

“Um homem de bem, quando não pode mais honrar os compromissos que assumiu, manda em seu lugar o atestado de óbito.” In “Noite sobre Alcântara”

“E ela jamais esqueceria a mão úmida da companheira, agarrada à sua, enquanto o rosto assustado lhe perguntava, com um fulgor de medo nas pupilas:
— Deus vai mandar me prender, Madalena? Ou eu já paguei minha conta, aqui na terra? Reze por mim. Vou deixar para você a minha Bíblia. E só o que eu tenho. Se eu chegar perto de Deus, vou dizer quem é você. Vou. Posso lhe fazer um pedido? Talvez seja o último. Já estou ficando sem forças. Pegue minha Bíblia, abra no Salmo 23. É aquele que diz que Deus é o meu pastor. Leia. Leia devagar.
E quando Madalena ergueu o olhar, ao fim da leitura, deu com a outra imóvel, de olhos parados. Desceu-lhe as pálpebras, cruzou-lhe as mãos. E curvando-se sobre a figura magra, que o lençol parecia tornar mais ossuda e lívida, rompeu a chorar baixinho, certa de que Deus havia recolhido ao seu rebanho, naquele presídio, a melhor ovelha.” In “O Silêncio da confissão”

“A gente precisa estar informada sobre tudo, papai. Para isso é que existem os livros. Sem esses rebeldes, o mundo não progredia. Eles vão na frente, abrindo o caminho.” In “Noite sobre Alcântara”

“Ele começou a reconhecer que, mais difícil do que viver, é saber encerrar harmoniosamente a vida, sem azedumes nem resmungos, em paz com o mundo que ficaria para trás.” In “Noite sobre Alcântara”

“Quem tem saudade nunca está só.”

Josué Montello (São Luís, 21 de agosto de 1917 — Rio de Janeiro, 15 de março de 2006)

Frases de Jean-Paul Sartre

“Nunca se é homem enquanto se não encontra alguma coisa pela qual se estaria disposto a morrer”. In “A Idade da Razão”, 1945

“Não há necessidade de grelhas, o inferno são os outros”. In “Entre Quatro Paredes”, 1945

“Ser-se livre não é fazermos aquilo que queremos, mas querer-se aquilo que se pode”. In “O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica”, Rio de Janeiro, Ed. Vozes, 1997

“Cada homem deve inventar o seu caminho”. In “A Idade da Razão”, 1945

“O homem não é nada mais do que aquilo que faz a si próprio”. In “Entre Quatro Paredes”, 1945

“Não fazemos aquilo que queremos e, no entanto, somos responsáveis por aquilo que somos’. In “O Existencionalismo é um Humanismo”, 1946

Jean-Paul Sartre (Paris, França, 21 de junho de 1905 – Paris, França, 15 de abril de 1980)

Oração de Mãe Menininha

Ai, minha mãe, minha Mãe Menininha
Ai, minha mãe, Menininha do Gantois
Ai, minha mãe, minha Mãe Menininha
Ai, minha mãe, Menininha do Gantois

Ai, minha mãe, minha Mãe Menininha
Ai, minha mãe, Menininha do Gantois
Ai, minha mãe, minha Mãe Menininha
Ai, minha mãe, Menininha do Gantois

A estrela mais linda, hein
Tá no Gantois
E o sol mais brilhante, hein
Tá no Gantois

A beleza do mundo, hein
Tá no Gantois
E a mão da doçura, hein
Tá no Gantois

O consolo da gente, ai
Tá no Gantois
A Oxum mais bonita, hein
Tá no Gantois

Olorum que mandou essa filha de Oxum
Tomar conta da gente e de tudo cuidar
Olorum que mandou, ê, ô, ora, iê, iê, ô
Ora, iê, iê, ô, ora, iê, iê, ô

Olorum que mandou essa filha de Oxum
Tomar conta da gente e de tudo cuidar
Olorum que mandou, ê, ô, ora, iê, iê, ô
Ora, iê, iê, ô, ora, iê, iê, ô

Ai, minha mãe, minha Mãe Menininha
Ai, minha mãe, Menininha do Gantois
Ai, minha mãe, minha Mãe Menininha
Ai, minha mãe, Menininha do Gantois

Ai, minha mãe, minha Mãe Menininha
Ai, minha mãe, Menininha do Gantois
Ai, minha mãe, minha Mãe Menininha
Ai, minha mãe, Menininha do Gantois

Ai, minha mãe, minha Mãe Menininha…

Dorival Caymmi (Salvador, 30 de abril de 1914 – Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2008)

esses trigênios’ vocalistas

/ que idéia é essa de querer plantar
ideogramas no nosso quintal
(sem nenhum laranjal          Oswald)?
e (Mário) desmanchar
a comidinha das crianças?

poesia pois é
poesia

te detestam
lumpenproletária
voluptuária
vigária
elitista piranha do lixo
porque não tens mensagem
e teu conteúdo é tua forma
e porque és feita de palavras
e não sabes contar nenhuma estória
e por isso és poesia
como Cage dizia

ou como
há pouco
augusto
o augusto:

que a flor flore
o colibri colibrisa
e a poesia poesia

Haroldo de Campos (São Paulo, 19 de agosto de 1929 — São Paulo, 16 de agosto de 2003). In “A educação dos cinco sentidos”. São Paulo: Brasiliense, 1985