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Autor: ematosinho
Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).
Eu voltava cansado como um rio. No Sumaré altíssimo pulsava a torre de tevê, tristonha, flava. Não: voltava humilhado como um tio bêbado chega à casa de um sobrinho. Pela ravina, lento, lentamente, feria-se o luar, num desalinho de prata sobre a Gávea de meus dias. Os cães quedaram quietos bruscamente. Foi no tempo dos bondes: vi um deles raiar pelo Bar Vinte, borboleta flamante, touro rútilo, cometa que se atrasa no cosmo e desespera: negra, na jaula em fuga, uma pantera.
Passei a mão nos olhos: suntuosa, negra, na jaula em fuga, ia uma rosa.
Paulo Mendes Campos (Belo Horizonte, Minas Gerais, 28 de fevereiro de 1922 — Rio de Janeiro, 1 de julho de 1991). In “Testamento do Brasil”, 1966
Selecionei um trecho do conto chamado “Passarinhada”, escrito pelo artista paraense Valdir Sarubbi, que foi meu saudoso professor de pintura. Ele era um leitor muito dedicado e um profundo conhecedor de literatura. Na última fase de sua vida ele se empenhou em escrever memórias e contos. Neste trecho do seu livro “Estórias paralelas” ocorre um diálogo entre personagens que falam sobre passarinhos e comidas, em especial, o açaí.
(…)
“Levanta o bracinho fino e aponta com o dedo mais fino ainda para o galho abarrotado de frutinhas. Com a outra mão leva as frutas à boca. Os olhos estão no galho repleto e por isso, em vez da boca, a azeitona roxa, quase preta, vai para o terreno entre os lábios e o nariz. Aí, com o acalcamento, espoca. O cíclame matiza o catarro que vai para a boca. O galho está cheio de frutas maduras. Caticó bate no galho. O Zeca aparece correndo, afogueado.
– Caticó, o danado tá lá…
As azeitonas no galho.
– Hum?
– O danado… o curió preto…
– Olha como tem azeitona, Zeca!…
– Num gosto de azeitona…M’impresta o alçapão… Onde está?
– Tá lá…
Zeca de novo, correndo, pegando o alçapão de Caticó, desaparecendo no mato. Pimpim cospe fora uma azeitona. Caticó se volta.
– Que foi, Pimpim? Engoliu caroço?
Pimpim tem o rosto assustado.
– Tomei açaí. Faz mal…
Caticó se volta para o outro galho.
– Intão num come mais.
Pimpim faz cara de choro.
– Hu…hu…hu…
– Chora, não, Pimpim. Vai sentá ali, vai…
Pimpim se afasta, manquejando.
– Vô morrê… Hu…hu…hu…
– Morre nada! Vai pr’ali…
(…)”
Estórias paralelas, 1999, 140 páginas
Gravura em metal do artista paraense Valdir Sarubbi e seu livro inédito – acervo família Sarubbi – edição póstuma
Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000)
Mas também: língua de se falar com as coisas e com as próprias palavras
O nome das coisas quando não falamos delas
Único modo que têm os mortos de cantar
O que há entre uma xícara e outra xícara entre uma pedra e uma rosa entre Vênus e uma cadeira
O modo como soa uma palavra riscada
Toda fala nasce com a cicatriz do silêncio, que foi quebrado
Não há palavra que não seja marcada pelo silêncio como camisas que secaram presas ao varal
Por outro lado, frequentemente o silêncio vem manchado por uma palavra como um espelho sujo
A forma mais próxima do silêncio é o círculo: forma geométrica da espera
O rastro que deixou o animal que não passou
É este o meu nome quando não me chamas
Ana Martins Marques (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1977), In “Risque esta palavra”, 2021. Com graduação em Letras, escreveu uma dissertação de mestrado sobre João Gilberto Noll e concluiu seu doutorado em literatura comparada na UFMG. Nesse ano de 2024 foi indicada entre os 5 finalistas do Prêmio Jabuti no eixo poesia pelo seu livro “De uma a outra ilha”, Editora Círculo de Poemas
De amar, minha Marília, a formosura Não se podem livrar humanos peitos: Adoram os heróis, e os mesmos brutos Aos grilhões de Cupido estão sujeitos. Quem, Marília, despreza uma beleza A luz da razão precisa, E se tem discurso, pisa A lei, que lhe ditou a Natureza.
Cupido entrou no céu. O grande Jove Uma vez se mudou em chuva de ouro; Outras vezes tomou as várias formas De general de Tebas, velha e touro . O próprio deus da guerra desumano Não viveu de amor ileso: Quis a Vênus e foi preso Na rede, que lhe armou o deus Vulcano.
Mas sendo amor igual para os viventes, Tem mais desculpa, ou menos esta chama: Amar formosos rostos acredita , Amar os feios, de algum modo infama. Quem lê que Jove amou, não lê nem topa, Que ele amou vulgar donzela: Lê que amou a Dânae bela, Encontra que roubou a linda Europa.
Se amar uma beleza se desculpa Em quem ao próprio céu e terra move: Qual é a minha glória, pois igualo Ou excedo no amor ao mesmo Jove? Amou o pai dos deuses soberano Um semblante peregrino; Eu adoro o teu divino, O teu divino rosto, e sou humano.
Tomás António Gonzaga (Miragaia, Porto, 11 de agosto de 1744 — Ilha de Moçambique, 1810), cujo nome arcádico é Dirceu