Todos me avaliam, mensuram, somam
os atributos e os glóbulos.
A cabeça e justamente os olhos.
A lucidez me dói
como um revés
de não ser nada disso,
de não levar o chapéu nos comícios,
o chapéu do argumento nítido
que cabe na frase ou na testa.
Medem-me, terreno
a ser comprado e arado
e se o for, o endereço
não será o do amor.
Somaram-me
na regra do sabre
ou na coronha
dos princípios nobres.
Não valho o que me pagam.
Não valho nada. Sou álamo
na praça, asno de encomenda
e para que sirvo
senão ser álamo e asno,
montado, desmontado
pelos deuses que fardo?
Não valho. E não aceito
o que me pagam
Carlos Nejar (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 11 de janeiro de 1939) é poeta, ficcionista e crítico e é o quinto ocupante da cadeira nº 4 da Academia Brasileira de Letras. É detentor de vários prêmios literários, entre os quais o Prêmio Nacional de Poesia Jorge de Lima (1971) do Instituto Nacional do Livro; Prêmio Érico Veríssimo (1981) concedido pela Câmara dos Vereadores de Porto Alegre; Prêmio Cassiano Ricardo, do Clube de Poesia de São Paulo, pela sua obra (1996); e Prêmio de Poesia da Associação Paulista de Críticos de Arte (1999), pelos 35 anos de publicação do Livro de Silbion. In “Ordenações, 1969-71