O meu nirvana

No alheamento da obscura forma humana,
De que, pensando, me desencarcero,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero
Encontrei, afinal, o meu Nirvana!

Nessa manumissão schopenhauereana,
Onde a Vida do humano aspeto fero
Se desarraiga, eu, feito força, impero
Na imanência da Ideia Soberana!

Destruída a sensação que oriunda fora
Do tato — ínfima antena aferidora
Destas tegumentárias mãos plebéias —

Gozo o prazer, que os anos não carcomem,
De haver trocado a minha forma de homem
Pela imortalidade das Ideias!

Augusto dos Anjos (Cruz do Espírito Santo, Paraíba, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, Minas Gerais, 12 de novembro de 1914)

Arte de amar

Não faço poemas como quem chora,
nem faço versos como quem morre.
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira
quando muito moço; achava que tinha
os dias contados pela tísica
e até se acanhava de namorar.
Faço poemas como quem faz amor.
É a mesma luta suave e desvairada
enquanto a rosa orvalhada
se vai entreabrindo devagar.
A gente nem se dá conta, até acha bom,
o imenso trabalho que amor dá para fazer.

Perdão, amor não se faz.
Quando muito, se desfaz.
Fazer amor é um dizer
(a metáfora é falaz)
de quem pretende vestir
com roupa austera a beleza
do corpo da primavera.
O verbo exato é foder.
A palavra fica nua
para todo mundo ver
o corpo amante cantando
a glória do seu poder.

Thiago de Mello (Barreirinha, Amazonas, 30 de março de 1926 – Manaus, Amazonas, 14 de janeiro de 2022)

Quando eu for bem velhinho

Mas quando eu for bem velhinho
Bem velhinho, que usar um bastão
Eu hei de ter um netinho
Pra me levar pela mão

No Carnaval eu não fico em casa
Eu não fico, vou brincar
Nem que eu vá me sentar na calçada
Pra ver meu bloco passar

Lupicínio Rodrigues (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 16 de setembro de 1914 — 27 de agosto de 1974) e Felisberto Martins (Rio de Janeiro, 9 de maio de 1904 – 1980)

Pesca

Nadam pelo lago do total,
lá, onde não há bem nem mal,
onde a água é imaterial e sem sal,
velozes feixes de anos-luz,
que, às vezes, alguém enxerga e traduz.

A criação é quase uma ilusão,
uma com-sentida concessão,
flash do arcaico, disfarce futurista,
mosaico íntimo-universalista.

Como pode alguém se envaidecer
de algo que venha a ser, ter ou fazer
na condição de mero canalizador
de apoteoses inter-caladas por dor?

Fernanda Spinelli (Santos, São Paulo)

Árvores do Alentejo

Horas mortas… Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido… e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!
Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!
Árvores! Não choreis! Olhai e vede:

– Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca (Vila Viçosa, Portugal, 8 de dezembro de 1894 — Matosinhos, Portugal, 8 de dezembro de 1930)