Autor: ematosinho
Primavera e o mais
A caminho do hospital de isolamento
sob as vagas de nuvens mosqueadas
de azul que chegam impelidas
do nordeste – um vento frio. Além, o
ermo de extensos campos lamacentos
pardos de erva ressequida, em pé ou aparada
nesgas de água parada
dispersão de árvores altas
Ao longo do caminho todo, ruivos, roxos
bifurcados, erectos, ramalhudos
os arbustos e arvoredos com
folhas de vide, pardas, mortas a seu pé
sem vidres –
Sem vida aparente, a vagarosa
e tonta primavera se aproxima –
Eles entram o novo mundo nus,
friorentos, inseguros de tudo,
salvo que entram. À sua volta sempre
o vento frio, já conhecido –
Hoje a relva, amanhã a tesa folha
espiralada da cenoura brava
Um por um os objetos se definem –
Mais depressa: luz, perfil de folha
Eis agora porém a hirta dignidade da
entrada – Entanto, a mudança profunda
acometeu-os: arraigados, eles
aferram-se ao chão e começam a acordar
William Carlos Williams (Rutherford , Nova Jersey , Estados Unidos, 17 de setembro de 1883 — 4 de março de 1973). Tradução: José Paulo Paes (Taquaritinga, São Paulo, 1926 — São Paulo, 9 de outubro de 1998)
Composição amarela
Janela
Tarde dominga tarde
Pacificada como os atos definitivos.
Algumas folhas da amendoeira expiram em degradado vermelho.
Outras estão apenas nascendo,
verde polido onde a luz estala.
O trono é o mesmo
e todas as folhas são a mesma antiga
folha
a brotar de seu fim
enquanto roazmente
a vida, sem contraste, me destrói.
Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)
Teia de aranha
Metaléxico
economicopia
desenvolvimentir
utopiada
consumidoidos
patriotários
suicidadões
José Paulo Paes (Taquaritinga, São Paulo, 1926 — São Paulo, 9 de outubro de 1998)
Poema enviado pelo amigo Edney Cielici Dias, poeta e autor do livro “Cartas da alteridade”.
Outono na orla de Epitácio
Imagens belas do Rio Paraná em Presidente Epitácio enviadas via WhatsApp pelo primo Antonio Eduardo Silva (Toninho da Texaco).
Fazendo 5 anos…
“Convidei minha família para participar de minha festa de auauniversário virtual de 5 anos comemorado hoje, dia 8 de abril. Na foto estamos eu (Poke), minha irmã gêmea Luna e meu pai Duby (in memoriam). “
Poke
Fotos da minha família enviadas pela dona de minha irmã Júlia Patrícia Coutinho (@juliapatricia68)
Xadrez
Narciso cego
Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio — não me frequento.
Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me, íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distinguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelos declives do mundo.
Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talvez um Deus
sonhe comigo, cobice
o que eu guardo e nunca usei.
Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-me sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo — pânico mudo —
entre o sonho e o sonhador.
Thiago de Mello (Barreirinha, Amazonas, 30 de março de 1926 – Manaus, Amazonas, 14 de janeiro de 2022). In “Narciso cego; Seguido do Romance do primogênito” (1952)
Poema enviado por WhatsApp pela amiga Maria Isabel Pellegrini Vergueiro que me fala assim: “Vai um poeminha para você… há dias que estou com ele na cabeça.“