J’en ai vu plusieurs…

J’en ai vu un qui s’était assis sur le chapeau d’un autre
il était pâle
il tremblait
il attendait quelque chose… n’importe quoi…
la guerre… la fin du monde…
il lui était absolument impossible de faire un geste
ou de parler
et l’autre, l’autre qui cherchait ” son ” chapeau
était plus pâle encore
et lui aussi tremblait
et se répétait sans cesse
mon chapeau… mon chapeau…
et il avait envie de pleurer.
J’en ai vu un qui lisait les journaux
j’en ai vu un qui saluait le drapeau
j’en ai vu un qui était habillé de noir
il avait une montre
une chaîne de montre
un porte monnaie
la légion d’honneur
et un pince-nez.
J’en ai vu un qui tirait son enfant par la main
et qui criait…
j’en ai vu un avec un chien
j’en ai vu un avec une canne à épée
j’en ai vu un qui pleurait
j’en ai vu un qui entrait dans une église
j’en ai vu un autre qui en sortait…

Jacques Prévert (Neuilly-sur-Seine, Ilha de França, 4 de fevereiro de 1900 — Omonville-la-Petite, Baixa Normandia, 11 de abril de 1977) foi um poeta e roteirista francês. In “Paroles”, 1946

Copacabana 1945

I

As fichas finais do jogo
foram recolhidas; fecha-se
o cassino; abre-se em fogo

o coração que devora.
Vejo em vez de eternidade
no relógio minha hora.

E ser quiser vejo a tua.
Às cinco tinhas encontro
num cotovelo de rua.

As cigarras do verão
tiniam quando sugavas
teu uísque com sifão.

Às onze no Wunder Bar
por meio acaso encontravas
a mulher que anda no ar.

Às três no Copabacana
uma torpeza uterina
pestana contra pestana.

Às quatro e pouco saías,
comias um boi às cinco,
às seis e meia morrias.

Às duas ressuscitavas,
às cinco tinhas encontro
às sete continuavas.

II

A mensagem abortada
de Copacabana perde-se
na viração: não é nada.

Morre um homem na polícia.
Tantos casos. Não é nada:
os jornais dão a notícia.

Uma criança que come
restos na lata de lixo
não é nada: mata a fome.

Não é nada. A favela
pega fogo. Não é nada:
faz-se um samba para ela.

Um moço mata a família
e se mata. Não é nada:
poupa o drama à tua filha.

Uma menina estuprada.
Uma virgem cai do céu.
Nada. Copacabanada.

III

Dava um doce calafrio
no esmalte azul recortado
súbito à tarde um navio.

O mistério transparente
do navio que passava
é ter tornado presente:

por fantasia do fado
naquele tempo ao passar
já parecia passado.

Quando ela achava o caminho
na ponta do Arpoador
eu ficava mais sozinho.

Pois um homem-gaivota
segue um barco, mesmo quando
não lhe conhece a derrota.

Latitude, longitude,
compasso de meu exílio…
Um homem sempre se ilude.

E quando o mar sem navio
ficava, eu olhava para trás
e me embrulhava no Rio.

IV

Anoitecia em cristais,
em paz de pluma tornando
à dor de Minas Gerais.

A dor que dá mas devora
como um blues comercial
no carro, quando é a hora.

E quando à janela o cone
de sombra me abismava
eu ligava o telefone.

Esse aparelho surdia
da ramagem de meus brônquios,
negra liana, e subia

em tropismos machucados,
pelas calhas do silêncio,
pelos terraços pasmados,

pela traqueia das áreas,
como tromba de elefante
ou aranhas solitárias

articuladas ao fio
como língua de serpente
a vasculhar o vazio,

a buscar qualquer canal
de amor (ou fosse miragem!)
no deserto vertical.

V

Às vezes chegava a lua
no despudor deslumbrante
da mulher que chega nua.

A mulher transverberada
entornando-se amorosa
nas vagas da madrugada.

Algumas foram no peito
do casto lençol do céu
para o cosmo do teu leito.

VI

Copacabana, golfão
sexual: soma dois corpos
mas divide solidão.

VII

Pelas piscinas suspensas,
pelas gargantas dos galos,
pelas navalhas intensas,

pelas tardes comovidas,
pelos tamborins noturnos,
pelas pensões abatidas,

eu vou por onde vou; vou
pelas esquinas da treva:
Copacabana acabou.

Paulo Mendes Campos (Belo Horizonte, 28 de fevereiro de 1922 — Rio de Janeiro, 1 de julho de 1991). In “Testamento do Brasil”, 1966
Nota: Em 1945, vai ao Rio de Janeiro conhecer o poeta Pablo Neruda e decide mudar para a cidade. Ingressa na imprensa local, escrevendo crônicas, poemas e artigos sobre literatura para o Correio da Manhã, O Jornal e Diário Carioca.

Metáfora

Antes de responder escrevi em grafite a palavra “concentrar”…

Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz “lata”
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz “meta”
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora

Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz “lata”
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz “meta”
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudo-nada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora

Gilberto Gil (Salvador, Bahia, 26 de junho de 1942). Canção de 1982 do álbum “Um banda um”. Me deparei com essa letra de música em janeiro de 1984 quando fui aprovado no vestibular da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) para cursar a graduação em Ciências Econômicas (e acabei não fazendo por lá). Nele o avaliador perguntava no texto 1: “A metáfora é a figura de linguagem identificada pela comparação subjetiva, pela semelhança ou analogia entre elementos. O texto de Gilberto Gil brinca com a linguagem remetendo-nos a essa conhecida figura. O trecho em que se identifica a metáfora é:” E a alternativa correta foi a “E” (“Que determine o conteúdo em sua lata”), pois “O autor faz uso de uma metáfora ao dizer que não se deve pedir que um poeta “determine o conteúdo em sua lata”. A lata do poeta pode ser sua cabeça, seu processo artístico, sua criação etc. Para o autor, não se pode exigir que um poeta se limite. A alternativa correta é alternativa E.”

Rememorando os tempos de aprendiz: Convites para os cursos de pintura no Ateliê Livre de Sarubbi

Sarubbi iniciou nos anos 1970 suas atividade como professor de teatro no grupo Experimental. E em seu Ateliê Livre de Pompéia, como educador, incentivava seus alunos a desfrutarem da biblioteca e da discoteca que mantinha lá, para desenvolverem o gosto pela literatura e música. Depois deu sequencia aos cursos na Rua Albuquerque Lins.

Convite enviado a possíveis alunos pelo artista Valdir Sarubbi para estudarem com ele desenho e pintura no seu último ateliê de Santa Cecília.

Nesse espaço deveras criativo se aprendia que a arte – o desenho, a escultura, o teatro – deveria expressar a percepção interior de cada um. Dizia Valdir que “o importante não é o engajamento do artista dentro da tendência ou movimentos específicos, mas uma visão aberta de quem olha a obra de arte para apreciá-la naquilo que ela apresenta de sensível, seja sobre que forma for” (Bittar, 2002).

Convocação para os cursos de pintura ministradas em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi em sua residência localizada na Rua Albuquerque Lins, quase esquina com Rua Baronesa de Itu, São Paulo.
Na Albuquerque…

Grande e cultuado mestre de todos nós, artistas natos, um dia que seja…

Gravura em metal do artista paraense Valdir Sarubbi e seu livro inédito – acervo família Sarubbi – edição póstuma

Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000)

Todas as vidas

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo…

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (Cidade de Goiás, 20 de agosto de 1889 — Goiânia, 10 de abril de 1985)