Cartas sujas

Escrevo-lhe amigo Barro, como um suspiro, após um soluço, onde te mostro meu pequeno mundo isolado sob o céu, onde cada um ergue a cabeça, coça o pescoço e cria o seu, numa atmosfera de supremacia.
O isolamento é a pior cousa que pode acontecer a cada um, e mesmo assim todos permanecem opacos, em seu sentimento, talvez como forma de sentir pelo menos uma vez na vida essa inquietude e que por fim vicia-te, e não consegue fugir à essa tristeza, tendo nas costas uma maior, e quando se está ameno, procura-se uma. Qual é o fim de tudo? Não sei se em meu mundo estou só, triste ou alegrecido. Sei que isso me satisfaz, pois crio uma situação só para mim. As mulheres são minhas, os rumos sou eu quem toma, eu que julgo e que culpo os infelizes, e que ao mesmo tempo, faço os felizes mais alegres ainda, dando-lhes todo o conforto. Para chegar onde? Talvez na minha infelicidade de liderar, graças ao meu sentimento de autofagia e de sofrimento. Quero me pôr acima de todos os humilhando, como me é feito, e não escapo a males imperdoáveis. Por fim sigo o seu olhar para trás. A situação já está perdida, e eu sei que não posso mudar. Tudo o que eu sujei e humilhei é tão pouco. Devo cultivar mais medo, para subir mais alto. Numa progressão aritmética infinita, sem fim, ou ter medo do fim…

Biblioteca de Carmita: Pelo Dia das Mães!

Desde quinta-feira, 07/05, estou no sítio de Ibiúna à trabalho, e encontrei nas estantes dele mais livros de minha mãe Maria do Carmo e faço com essa postagem uma homenagem à ela nesse dia ímpar. Também mostro uma foto dela jovem. Acima segue o painel que fiz…

Maria do Carmo Ferreira Matosinho, * Motuca SP, 25 de março de 1926 – + Ourinhos SP, 5 de abril de 1966, mãezinha

Trechos econômicos

“Ricardo formulou também a “lei dos custos comparativos” (ou lei das vantagens comparativas) com que procurou demonstrar a vantagem de um país importar determinados produtos mesmo que pudesse produzi-los por preço inferior, desde que a sua vantagem em comparação com outros produtos fosse ainda maior. Essa lei constitui ainda hoje uma parte importante da teoria do comércio internacional!”

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“A publicação do livro coincidiu com a Revolução Industrial e satisfazia aos interesses econômicos da burguesia inglesa. Nele Adam Smith exalta o individualismo, considerando que os interesses individuais livremente desenvolvidos seriam harmonizados por uma “mão invisível”e resultariam no bem estar coletivo; essa “mão invisível” entraria também em jogo no mercado dos fatores de produção enquanto imperasse a livre concorrência. A apologia do interesse individual e a rejeição da intervenção governamental na economia se transformariam em teses básicas do liberalismo.”

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“Ao mesmo tempo em que redigia “O capital”, Marx voltou suas atenções para o movimento operário contribuindo decisivamente, ao lado de Engels, para a fundação da Associação Internacional do Trabalho (Primeira Internacional), criada em Londres em 1864. Foi numa das reuniões do Conselho Geral da Internacional que expôs pela primeira vez, em forma de conferência, sua teoria definitiva dos salários, publicado postumamente com o nome de “Salário, preço e lucro”.

Vencedor

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma
Nenhum pôde domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!

Augusto dos Anjos (Engenho Pau D’Arco, Vila do Espírito Santo, atual município de Sapé, Paraíba, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, Minas Gerais, 12 de novembro de 1914). In “Poemas / Augusto dos Anjos”, seleção de Zenir Campos Reis. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2002. (Coleção Leitura)

Vista cansada

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa ideia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima ideia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

Otto Lara Resende (São João del-Rei, Minas Gerais, 1 de maio de 1922 – Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1992) foi um jornalista e escritor brasileiro. Texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992