Mar morto

À memória de Mário de Andrade

Na rua deserta
Sem sorrisos
Andava
e sorria poesia
Um mar de poesias
Espumantes, presentes
No coração do bandeirante

Mário avenida São João
Mário rua Aurora
Mário pedaço de papel
venerado pelo tempo

Pisando a terra
Que o cultivava
Sob o céu que o regava
Mário poesia

Na sola do sapato
No paletó desventura
Nos óculos que o abrigava
Mário presente

Mário chão
Mário céu
Mário vida
Que se foi
mas sempre é

Os olhos brilhantes
Que eu não conheci
A palma da mão
Que eu não apertei No pedaço de jornal
Que eu recortei
Mário amigo

Mário fuga de estrêlas
Eternamente presentes
Na alma da gente

Espumas presentes
De um mar morto

Espumas de Mário…

Gilberto di Piero, mais conhecido pelo seu pseudônimo Giba Um (São Paulo, 1 de janeiro de 1942) é um jornalista brasileiro, que também atua como apresentador de TV, produtor de teatro, consultor de comunicação e consultor de marketing político. In “Ciranda – O menino de cimento”, São Paulo: Editora Áquila, 1963

Soneto 8

Ó música, por que te escutas com tristura?
O doce ama a doçura, o alegre ama a alegria:
E por que amas tu só o que te traz amargura,
E acolhes com prazer o que só te entedia?
Se a concórdia dos sons justamente afinados,
Casados, num enlace, ofende os teus ouvidos,
Censuram-te com trino, e deixam misturados
O que, solteiro, tu devias ter unido.
Vê: uma corda, doce, a outra corda esposa,
Tocam-se, cada qual, de maneira alternante,
Assim como o senhor, o filho e a mãe ditosa,
Que entoam uma nota amável, acordante:
Múltipla, una, sem palavras, a balada
Canta-te: “Murcharás solteiro, serás nada.”

William Shakespeare (Stratford-upon-Avon, Reino Unido, 1564 (batizado a 26 de abril) — Stratford-upon-Avon, Reino Unido, 23 de abril de 1616). In “Sonetos ao jovem desconhecido”, São Paulo: Landy Livraria Editora e Distribuidora, concepção e tradução de Renata Maria Parreira Cordeiro, 2003

Em português

Aranha, cortiça, pérola
e mais quatro que não falo
são palavras perfeitas.
Morrer é inexcedível.
Deus não tem peso algum.
Borboleta é atelobrob,
um sabão no tacho fervendo.
Tomara estas estranhezas
sejam psicologismos,
corruptelas devidas
ao pecado original.
Palavras, quero-as antes como coisas.
Minha cabeça se cansa
neste discurso infeliz.
Jonathan me falou:
‘Já tomou seu iogurte?’
Que doçura cobriu-me, que conforto!
As línguas são imperfeitas
Que doçura cobriu-me, que conforto!
As línguas são imperfeitas
pra que os poemas existam
e eu pergunte donde vêm
os insetos alados e este afeto,
seu braço roçando o meu.

Adélia Prado (Divinópolis, Minas Gerais, 13 de dezembro de 1935). In “A faca no peito”, Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1988

Sonho

Meu coração repousa junto à fonte fria.
(Enche-a com teus fios,
aranha do esquecimento.)

A água da fonte sua canção lhe dizia.
(Enche-a com teus fios,
aranha do esquecimento.)

Meu coração desperto seus amores dizia.
(Aranha do silêncio,
tece ali teu mistério.)

A água da fonte o escutava sombria.
(Aranha do silêncio,
tece ali teu mistério.)

Meu coração se curva sobre a fonte fria.
(Mãos brancas, distantes,
detende as águas.)

E a água o leva cantando de alegria.
(Mãos brancas, distantes,
nada fica nas águas.)

Federico Garcia Lorca (Fuente Vaqueros, Andaluzia, Espanha, 5 de junho de 1898 – Víznar e Alfacar, Granada, Espanha, 18 de agosto de 1936). In “Poemas de amor de Federico Garcia Lorca: Remansos de amor – Antologia”. Organização Luiz Raul Machado; tradução Floriano Martins, Rio de Janeiro: Ediouro Publicações, 1998