Poesia africana

Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas

Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa

No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas

E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone

Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.

António Agostinho Neto, conhecido por Agostinho Neto (Aldeia de Kaxicane, região de Icolo e Bengo, Angola, 17 de setembro de 1922 – Moscou, Rússia, 10 de setembro de 1979). Foi um médico, escritor e político angolano. Foi Presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola e em 1975 tornou-se o primeiro Presidente de Angola, ficando até 1979. Em 1975-1976 foi-lhe atribuído o Prêmio Lenin da Paz

Em memória de W.B. Yeats († Jan. 1939)

I

Morreu no rigor do inverno:
Os ribeiros estavam gelados, os aeroportos quase desertos,
A neve desfigurava as estátuas públicas;
O mercúrio afogava-se na boca do dia agonizante.
Todos os instrumentos que possuímos
Concordam que o dia da sua morte foi escuro e frio.

Longe da sua doença,
Os lobos corriam nas florestas verdejantes,
Cais sedutores não tentavam os rios campestres;
A voz das carpideiras
Manteve a morte do poeta afastada dos seus poemas.

Mas para ele foi a sua última tarde,
Uma tarde de enfermeiras e boatos;
As províncias do seu corpo revoltaram-se,
As praças do seu espírito estavam desertas.
O silêncio invadiu os subúrbios,
A corrente dos seus sentidos estancou; ele tornou-se os seus admiradores.

Agora está espalhado por inúmeras cidades,
Inteiramente oferecido a afectos estranhos,
Para encontrar a sua felicidade noutro bosque
E ser castigado por um código estrangeiro.
As palavras de um morto
Modificam-se nas entranhas dos vivos.

Mas na importância e no barulho de amanhã
Quando, como animais, os corretores berrarem no recinto da Bolsa
E os pobres sofrerem como estão acostumados
E na cela de si, cada um se convencer que é livre,
Uns poucos milhares pensarão neste dia,
Como quem pensa num dia em que fez algo pouco habitual.
Todos os instrumentos que possuímos
Concordam que o dia da sua morte foi escuro e frio.

W.H. Auden (York, Reino Unido, 21 de fevereiro de 1907 — Viena, Áustria, 29 de setembro de 1973). In “Massacre dos inocentes (Uma antologia)”. Seleção, tradução e notas de José Alberto Oliveira. Lisboa: Assírio & Alvim, 1994

Nota: William Butler Yeats , muitas vezes apenas designado por W.B. Yeats (Sandymount, Dublin, Irlanda, 13 de junho de 1865 — Roquebrune-Cap-Martin, França, 28 de janeiro de 1939)

Iara, a mulher verde

Neste país de coisas em excesso
o sol me agride, o azul passa da conta.
No entanto, os poucos beijos que te peço
o teu amor futuro me desconta.

De tanto céu tenho a cabeça tonta.
O meu jornal é todo em verde impresso.
Só tu, a quem já um pássaro amedronta,
te fechas no mais íntimo recesso…

No país do excessivo, és muito pouca.
Vê a borboleta jovem, como esvoaça.
Vê como nos convida a manhã louca!

Por que seres assim, se tudo é assombroso,
se a própria nuvem branca – e com que graça –
só falta vir pousar em nosso ombro?

Cassiano Ricardo (São José dos Campos , São Paulo, 26 de julho de 1895 — Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1974). In “Grandes sonetos de nossa língua”. Organização e seleção de José Lino Grünewald. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1987

Cajás

Cajás! Não é que lembra à Laura um dia
(Que dia claro! esplende o mato e cheira!)
Chamar-me para em sua companhia
Saboreá-los sob a cajazeira!

“Vamos sós?” – perguntei-lhe. E a feiticeira:
– “Então! tens medo de ir comigo?” E ria.
Compõe as tranças, salta-me ligeira
Ao braço, o braço no meu braço enfia.

– “Uma carreira!” – “Uma carreira!” — “Aposto!”
A um sinal breve dado de partida,
Corremos. Zune o vento em nosso rosto.

Mas eu me deixo atrás ficar, correndo.
Pois mais vale que a aposta da corrida
Ver-lhe as saias voar, como vou vendo.

Alberto de Oliveira (Saquarema, Rio de Janeiro, 28 de abril de 1857 — Niterói, Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 1937). In “Grandes sonetos de nossa língua”. Organização e seleção de José Lino Grünewald. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1987

“The story of the eye” (A história do olho)

Georges Bataille: The story of the eye – With essays by Susan Sontag and Roland Barthes. Destaco a incrível obra: “Etant donnés le gaz d’éclairage et la chute d’eau” (Dado ou considerando o gás de iluminação e a cachoeira) by Marcel Duchamp, in a private collection (Photo: Arts Council of Great Britain).

Na capa desse livro vemos a última grande criação de Marcel Duchamp. Trata-se de uma montagem, assemblage de 1966, que na época em que foi exposta surpreendeu espectadores e críticos que acreditavam que ele havia abandonado a arte; pois, anteriormente, ele havia se dedicava ao xadrez competitivo, que praticava há quase 25 anos. Ela é um tableau, visível apenas através de dois orifícios — um para cada olho — em uma porta de madeira, de uma mulher nua deitada de costas em uma colina com o rosto escondido, as pernas abertas, segurando uma lamparina a gás no ar em uma das mãos contra um cenário de paisagem.

Marcel Duchamp foi um pintor, escultor e poeta francês, cidadão dos Estados Unidos a partir de 1955, que se destacou pelos seus famosos ready-mades, que constituem manifestação cabal de certo espírito que caracteriza o dadaísmo. Ao transformar qualquer objeto em obra de arte, o artista realiza uma crítica radical ao sistema da arte.

Marcel Duchamp (Blainville-Crevon, França – 1887 / Neuilly-sur-Seine, França – 1968)