Autor: ematosinho
Três poemas de Paul Verlaine
I
No ermo da mata o som da trompa ecoa,
Vem expirar embaixo da colina.
É uma dor de orfandade se imagina
Na brisa, que em ladridos erra à toa.
A alma do lobo nessa voz ressoa. . .
Enche os vales e o céu, baixa à campina,
Numa agonia que à ternura inclina
E que tanto seduz quanto magoa.
Para tornar mais suave esse lamento.
Através do crepúsculo sangrento,
Como linho desfeito a neve cai.
Tão brando é o ar da tarde, que parece
Um suspiro do outono. E a noite desce
Sobre a paisagem lenta que se esvai.
II
As mãos que foram minhas, mãos
Tão bonitas, mãos tão pequenas,
Após tanto equívoco e penas,
Tantos episódios pagãos,
Após os exílios medonhos,
Ódios, murmurações, torpezas,
Senhoris mais do que as princesas
As caras mãos abrem-me os sonhos.
Mãos no meu sono e na minh’alma,
Pudera eu, ó mãos celestes,
Adivinhar o que dissestes
A est´alma sem pouso nem calma!
Mente-me acaso a visão casta
De espiritual afinidade,
De maternal cumplicidade
E de afeição estreita e vasta?
Caro remorso, dor tão boa,
Sonhos benditos, mãos amadas,
Oh essas mãos, mãos consagradas,
Fazei o gesto que perdoa!
III
Chora em meu coração
Como chove lá fora.
Que desconsolação
Me aperta o coração!
Oh a chuva no telhado
Batendo em doce ruído!
Para as horas de enfado,
Oh a chuva no telhado!
Chora em ti sem razão,
Coração sem coragem.
Se não houve traição,
Teu luto é sem razão.
Certo, é esse a pior dor:
O não saber por que
Sem ódio e sem amor
Há em mim tamanha dor.
Paul Verlaine (Metz, França, 30 de março de 1844 – Paris, França, 8 de janeiro de 1896). Tradução de Manuel Bandeira
El Comandante Fidel Castro
Toada dos negros em Cuba
Quando chegar a lua cheia, irei a Santiago de Cuba,
Irei a Santiago.
Num carro de água negra
Irei a Santiago,
Cantarão os tetos de palmeira.
Irei a Santiago.
Quando a palma quer ser cegonha,
Irei a Santiago.
E quando quer ser medusa o plátano,
Irei a Santiago.
Irei a Santiago.
Com a ruiva cabeça do Fonseca,
Irei a Santiago.
E com a rosa de Romeu e Julieta
Irei a Santiago.
Oh Cuba! Oh ritmo de sementes secas!
Irei a Santiago.
Oh cintura quente e gota de madeira!
Irei a Santiago.
Harpa de troncos vivos. Caimão. Flor de tabaco.
Irei a Santiago.
Sempre tenho dito que irei a Santiago
Num carro de água negra.
Irei a Santiago.
Meu coral na treva,
Irei a Santiago.
O mar afogado na arei,
Irei a Santiago.
Calor branco, fruta morta,
Irei a Santiago.
Oh bovino odor de canavieiras!
Oh Cuba! Oh curva de suspiro e barro!
Irei a Santiago.
Federico Garcia Lorca (Fuente Vaqueros, Andaluzia, Espanha, 5 de junho de 1898 – Víznar e Alfacar, Granada, Espanha, 18 de agosto de 1936). Tradução de Manuel Bandeira. In “Poemas traduzidos”. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1948
Cara cara
Beleza e verdade
Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo.
Alguém que morrera pela verdade
Era depositado no carneiro contíguo.
Perguntou-me baixinho o que me matara:
– A beleza, respondi.
– A mim, a verdade – é a mesma coisa,
Somos irmãos.
E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversámos de jazigo a jazigo,
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.
Emily Dickinson (Amherst, Condado de Hampshire, Massachusetts, Estados Unidos, 10 de dezembro de 1830 – Amherst, 15 de maio de 1886). Tradução de Manuel Bandeira que o publicou no jornal “Paratodos” em 1928. Algo curioso é que essa poetisa não dava títulos a seus poemas, mas Bandeira optou em dar nome ao poema e seguir o uso mais corrente entre os leitores brasileiros. O poeta-tradutor retocou esse poema de Dickinson até a edição de 1956 de “Poemas traduzidos”. In “Alguns poemas traduzidos”. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, p. 76, 2007
Caindo
Quatro hai-cais de Bashô
1.
Quatro horas soaram.
Levantei-me nove vezes
Para ver a lua.
2.
Fecho a minha porta.
Silencioso vou deitar-me
Prazer de estar só…
3.
A cigarra… Ouvi:
Nada revela em seu canto
Que ela vai morrer.
4.
Quimonos secando
Ao sol. Oh aquela manguinha
Da criança morta!
Matsuo Basho (Tóquio, Japão, 1644 – Osaka, Japão, 28 de novembro de 1694). Tradução de Manuel Bandeira
Da janela lateral
Anelo
Só aos sábios o reveles,
Pois o vulgo zomba logo:
Quero o louvar o vivente
Que aspira à morte no fogo.
Na noite — em que te geraram,
Em que geraste —sentiste.
Se calma a luz que alumiava,
Um desconforto bem triste.
Não sofres ficar nas trevas
Onde a sombra se condensa.
E te fascina o desejo
De comunhão mais intensa.
Não te detém as distâncias,
Ó mariposa! e nas tardes,
Ávida de luz e chama,
Voas para a luz em que ardes.
“Morre e transmuda-te”: enquanto
Não cumpres esse destino,
És sobre a terra sombria
Qual sombrio peregrino.
Johann Wolfgang von Goethe (Frankfurt am Main, Hesse, Alemanha, 28 de agosto de 1749 – Weimar, Turíngia, Alemanha, 22 de março de 1832). In “Poesia sempre”, número 31, Ano 15. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, Ministério da Cultura. 2009. 217 p. ilus. col. Editor Marco Lucchesi. Ex. bibl. Antonio Miranda. O poema original intitulado “Selige Sehnsucht” (Nostalgia abençoada/ de bem-aventurança) foi traduzido por Manuel Bandeira, este que é um clássico da lírica alemã, adaptando-o para o seu próprio estilo e sensibilidade modernista