Uma coisa em nós é rasa e profundamente igual.
Queremos ser felizes.
O mais grave dos homens,
se vir no prato um ovo de duas gemas,
ainda que de boca fechada, sorrirá.
Tudo guarda um sinal,
tudo é escritura, código, aviso,
voz que de outra maneira soa.
De seu lugar, o retrós, o albatroz
até o fim dos tempos falarão.
A borboleta, só de abrir e fechar as asas,
está falando.
Não se faz poesia apenas com palavras;
poemas, sim, mas quem precisa deles?
Adélia Prado (Divinópolis, Minas Gerais, 13 de dezembro de 1935). In “O jardim das oliveiras”, Editora Record, 2025