Decifrando o escrito: “O velho à noite”.
Mês: agosto 2024
Três frases curtas de Machado de Assis
“Está morto: podemos elogiá-lo à vontade.”, In “Obra Completa de Machado de Assis”. vol. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. Nota: Conto “O Empréstimo.”
“Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.”, In “Memorial de Aires”, 1908.
“Dormir é um modo interino de morrer.”, In “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Rio de Janeiro: Typografia. Nacional, 1881. Nota: Trecho ligeiramente adaptado do original “preferi dormir, que é um modo interino de morrer”.
Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 – Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908)
Ao mestre Sarubbi
Sonho domado
Sei que é preciso sonhar.
Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.
Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.
A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.
Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.
Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.
É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.
Thiago de Mello (Barreirinha, Amazonas, 30 de março de 1926 – Manaus, Amazonas, 14 de janeiro de 2022)
Entrelace
Confrontado diante da poesia/ Confrontado ante la poesía
e diante de mim mesmo. Profundas
bordas do mar. Escuros
os seus sobressaltos.
Uma herbívora gaivota sobrevoa.
me sobrevoa.
Confrontado com meus seres queridos,
com minhas queridas amizades.
Tê-los traídos todos eles.
Menos na lágrima desnuda.
Menos no desejo incandescente.
Já sou outro homem.
Alguém que abre portas
e vai embora. Algum outro que não procurei.
Que veio assim e foi me tingindo
desde as meias até o gorro.
Alguém que abre a porta
e se vai. Que vai embora para sempre.
Confrontado ante la poesía
y ante mí mismo. Hondos
costados los del mar. Oscuros
sus sobresaltos.
Una herbívora gaviota lo sobrevuela,
me sobrevuela.
Confrontado con mis seres queridos,
con mis queridas amistades.
Haberlos traicionado a todos.
Menos en la desnuda lágrima.
Menos en el deseo incandescente.
Yo soy otro hombre ya.
Alguien que abre puertas
y se marcha. Algún otro que no busqué.
Que vino así y me fue tiñendo
desde los calcetines hasta el gorro.
Alguien que abre su puerta
y se va. Que ya se marcha para siempre.
Pedro Granados Agüero (Lima, Perú, 1955). Tradução de Antonio Miranda
Rindo, tanga e executivo
Minha especialidade é viver – era a legenda
minha especialidade é viver – era a legenda
de um homem (que não tinha renda
porque não estava à venda)
olhar à direita – replicaram num segundo
dois bilhões de piolhos púbicos do fundo
de um par de calças (morimbundo)
E. E. Cummings (Cambridge, Massachusetts, Estados Unidos, 14 de outubro de 1894 — North Conway, Nova Hampshire, Estados Unidos, 3 de setembro de 1962). Tradução: Augusto de Campos (São Paulo, 14 de fevereiro de 1931)
Na roda de bicicleta
Le Corbusier
II
Risco à régua
um ritmo reto
retém o rumo
rude da pedra
milimetrado voo
via viaduto vão
respira a planta
trevo sem trégua
calado cálculo
concreto decalca
as ruas na cal
calçadas: calmas
avenidas claras
avançam: vazias
janelas vidradas
fachadas frágeis
pilotis plantados
cubos de granito
blocos de cimento
fixos: edifícios
iluminados traços
de alumínio: vivos
veículos vestidos
de ferros e vidros
gestos e linhas
vínculos e vigas
faixas e listras
cinética imagem
cidade.
Armando Freitas Filho (Rio de Janeiro, 1940), In “Dual” (1966). Tirado da internet em um site que apresenta uma seleção de cinco poemas dele com curadoria de Luís Araujo Pereira