Mês: novembro 2024
Sinfonia de cor
Sempre defronte
de mim
o mar azul, o mar imenso, o mar sem fim,
todo igual e azul até ao horizonte.
Neste dia delirante
de luz crua a jorrar, intensa, lá do alto,
uma vela distante
mancha de branco o seu azul-cobalto.
Um traço de espuma branca
junto à penedia
marca a linha da costa em enseada franca.
E a nota branca
das gaivotas em bando,
esvoaçando
à revelia,
e um ritmo novo de alegria,
de ruído e de graça.
Perto uma vela passa,
lenço branco a acenar…
Não ter asas também para poder voar
aonde me levasse a minha fantasia!
E ser gaivota e mergulhar
na água e bater asas,
alegre, todo o dia!
Poisar nos calhaus negros, que são brasas,
brasas negras a arder,
e ver aos pés a referver
aos borbotões de espuma.
Dar um grito e subir,
subir alto e distante,
já quando a terra se esfuma
e o mar aumenta, quanto mais avante.
Partir!
Partir para o delírio das alturas,
só, entre o céu e o mar,
longe do mundo e mais das criaturas.
Ah! Não ter asas e poder voar
de alma desvairada,
entontecer-me de espaço…
– Nota branca riscada
entre o azul do céu e o azul do mar.
Depois voltar
para ver
o sol morrer
num clarão de fogueira,
incendiando o céu, metalizando o mar…
E ver a noite abrir
o regaço
para deixar cair
uma a uma as estrelas.
Adormecer a vê-las…
Depois sonhar,
num delírio de cor, a noite inteira.
Armando Côrtes-Rodrigues (Vila Franca do Campo, Portugal , 28 de fevereiro de 1891 — Ponta Delgada, Portugal , 14 de outubro de 1971). In “Antologia poética”
Grafite, canetinha, grafite
A palavra 1
“…Sim senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam… Prosterno-me diante delas… Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as… Amo tanto as palavras… As inesperadas… As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem… Vocábulos amados… Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho… Persigo algumas palavras… São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema… Agarro-as no voo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas… E então as envolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as… Deixo-as como estalactites em meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda… Tudo está na palavra… (…)”
Pablo Neruda (Parral, Chile, 12 de julho de 1904 — Santiago, Chile, 23 de setembro de 1973). In “Confesso que vivi”, tradução de Olga Savary, Difel – São Paulo: Difusão Editorial S. A., 1974
Negritude
Hai-kais
O Pensamento
O ar. A folha. A fuga.
No lago, um círculo vago.
No rosto, uma ruga.
*
Hora de ter saudade
Houve aquele tempo…
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)
*
Cigarra
Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.
*
Consolo
A noite chorou
a bolha em que, sobre a folha,
o sol despertou.
*
Chuva de primavera
Vê como se atraem
nos fios os pingos frios!
E juntam-se. E caem.
*
Noturno
Na cidade, a lua:
a jóia branca que bóia
na lama da rua.
*
Os andaimes
Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.
*
Tristeza
Por que estás assim,
violeta? Que borboleta
morreu no jardim?
Guilherme de Almeida (Campinas, São Paulo, 24 de julho de 1890 — São Paulo, 11 de julho de 1969). Alguns de seus hai-kais extraídos do livro “Poesia Vária”, São Paulo, 23 de fevereiro de 1937
Mulheres no guardanapo
Samba japonês
Aqui pela primeira vez
Eu canto pra vocês
Um samba e um batuque feito para japonês
E vem aqui dançar comigo
Sem levar um tombo
E só se para quando ouvir o som daquele gongo
Tóquio é a cidade que
Quase vive em paz
Porque a polícia lá estuda até arranjos florais
Bruce Lee, Kung-fu, Shaolin chegou
E veio sambando e cantando em nagô
O sol então nos encontrará
Pela madrugada
De mãos dadas como num conto de fadas
Cor de jade e de marfim, nos invade
Amor sem fim, felicidade é uma coisa assim
O sol então nos encontrará
Pela madrugada
De mãos dadas como num conto de fadas
Cor de jade e de marfim, nos invade
Amor sem fim, felicidade é uma coisa assim
Jorge Mautner (Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 1941) / Nelson Jacobina (Rio de Janeiro, 1953 — Rio de Janeiro, 31 de maio de 2012)
Na mata
Broadway
A Mário de Andrade
Chato, pardo-cinzento, o chão
flutua lento, mole,
o chão escorre vagaroso,
contrai-se em blocos súbitos,
estica-se em flechas longas
trepidantes,
dispara, de repente, em riscos elásticos,
gira,
rodopia,
turbilhona e ferve num vapor sutil de linhas e
movimentos.
Aquele chão carrega todas as imaginações
do mundo!
Aquele chão carrega
iscas da Ucrânia,
vinhas de Bordéus,
parques do Tâmisa,
saveiros do Volga,
âmbar, corais, madrepérolas das Antilhas,
guano de Mollendo,
canaviais de Cuba,
juncos de Shangai,
cafezais de Ribeirão Preto,
chifres de Pampa,
fornos de Essen, fornos de Newcastle,
óleos de Tampico,
salitres de Iquique,
barbatanas da Terra Nova,
mares coalhados de ferros e madeiras,
terras gordas,
ilhas com batuques, tan-tans e redes
molinosas,
montanhas verdes, montanhas de óxidos e
cristais,
rios onde bóiam troncos, plantas, cobras e
tartarugas,
florestas de plumas, penas e folhagens,
praias, canais, mangues,
luzes de trópicos, luzes do polo,
desertos,
civilizações…
Aquele chão é uma paisagem em marcha.
Chão que mistura as poeiras do Universo e
onde se confundem todos os ritmos do
passo humano!
Chão épico, chão lírico, chão idealista,
chão indiferente de Broadway,
largo, chato, prático e simples como este
roof liso, suspenso no ar, este roof, onde um
saxofone derrama um morno torpor
de senzalia debaixo do sol.
Ronald de Carvalho (Rio de Janeiro, 16 de maio de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 1935). Colaborou na edição n.º 1 da Revista Orpheu