Um dizer ainda puro

imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato (Lisboa, Portugal, 30 de Março de 1978). in “Um mover de mão”, Assírio e Alvim, 2000

Blog, 20 anos…

O blogRedescobrindo” de minha autoria completa 20 anos no ar nessa sexta-feira, 22/08/25. Para lembrar essa “redonda” data criei a imagem acima inspirada em um antigo banner dele. A primeira versão do blog, que ficou no ar até 23 de maio de 2019, beirou os 30 mil acessos e essa nova e modernizada versão já passou dos um milhão e meio, com mais de 158 mil visitantes. Ele possui 200 páginas, já foram publicados 1.994 posts e aprovados 359 comentários. No dia 19/08/25, ele obteve a excelente marca de 7.761 páginas visitadas em um único dia…

Valeu pessoal pelas visitas e pelo prestígio.

Abraços e retornem mais vezes,

Eduardo Matosinho

A ideologia dos humores

Deixa-me ser como tu
geração empenhada
cheia de causas
quando as causas
dizia-se terem expirado
como os prazos e a Historia

como tu arrumado
à esquerda à direita
tão faccioso e tão seguro
sem saltar de uma margem
para a outra ao sabor
das guinadas ao volante
e da ideologia dos humores

ah geração empenhada
que pões os teus
óculos partidários
para assistir ao jogo
dos homens

sabes tanto

suspende-me o desvario
oferece-me
teimosias bandeiras ideais
ensina-me a incluir
a palavra “contra”
no dicionário dos almoços.

Nuno Costa Santos (Lisboa, Almada, Portugal, 1974)

Aula de natação

Sobrevivemos em extremas condições.
Agora esforçarmo-nos por levantar a cabeça
e é uma boia à tona da água
sob a claraboia da catedral
do imenso baptistério

peixes passando para lá
e para cá cardumes
hidráulicos combatendo a gravidade
de nadadores
rastejando, as suas pás trotando a água

como soldados feridos
rebocando as suas pernas
atrás dos seus variegados capacetes
luzidios.
Alguns aleijados, mutilados, alguns torsos

milhares de peixes superficiais
avenidas de combatentes
aforando as águas,
combatendo as águas
sobrevivendo-lhes –

olha aquele além em plena
fisioterapia, de que guerra veterano?…
tentando combater o adverso
já em pura adversidade
vede-os

sobre as águas vão
nesta república
procuram a igualdade da Atlântida.
A água é a mesma
mas uns são melhores nadadores.

Daniel Jonas (Porto, Portugal, 1973). In “Os fantasmas inquilinos”, Editora Todavia, 2019