Sobrevivemos em extremas condições.
Agora esforçarmo-nos por levantar a cabeça
e é uma boia à tona da água
sob a claraboia da catedral
do imenso baptistério
peixes passando para lá
e para cá cardumes
hidráulicos combatendo a gravidade
de nadadores
rastejando, as suas pás trotando a água
como soldados feridos
rebocando as suas pernas
atrás dos seus variegados capacetes
luzidios.
Alguns aleijados, mutilados, alguns torsos
milhares de peixes superficiais
avenidas de combatentes
aforando as águas,
combatendo as águas
sobrevivendo-lhes –
olha aquele além em plena
fisioterapia, de que guerra veterano?…
tentando combater o adverso
já em pura adversidade
vede-os
sobre as águas vão
nesta república
procuram a igualdade da Atlântida.
A água é a mesma
mas uns são melhores nadadores.
Daniel Jonas (Porto, Portugal, 1973). In “Os fantasmas inquilinos”, Editora Todavia, 2019