Mês: agosto 2025
Rua do Norte
No primeiro cansaço não sei o que perdi
amava-te como o refém arrastado sem pressas
amava-te diante do medo mais bonito de te amar
e a história deste sofrimento de oiro
move-se com a velocidade de uma doença fixa
gravitando nos confins perigosos da força do mel
e deitado no chão da sala oiço o rumor do mundo
e aprendo que morrer não significa nada
só podemos falar das imagens que se movem
ao encontro da loucura nesse estremecimento consentido
nessa loucura tua e nossa que ensina o mundo a voar
se nenhum receio no medo mais feliz
hoje digo que te amei ou que te amava ou que te amo
vou dizer que este poema não é teu
vou repetir mil vezes a impressão dos teus dentes
na tua música de foto e vento e lábios novos
mas vou negar tudo
acreditar que sim e que não negar
os que disse depois do silêncio
no primeiro cansaço mesmo antes de teu nome ou
mesmo muito depois de nós
Joaquim Cardoso Dias (Castelo Branco, Portugal, junho de 1973)
Papelão 1
Um poema
umas coisas atrás de outras
fixou na parede a tabuleta e lê-se
proibida a afixação
quem plantou aquela nespereira sabia o que fazia
agora há mais pássaros atrás das nêsperas
muito para além dos frutos alguém
escreveu numa parede do cais do sodré
a fatinha tem sida
aviso enorme
de enormidade
e ali perto outra inscrição
num prédio do corpo santo
paredes brancas povo mudo
Abel Neves (Montalegre, Portugal, abril de 1956). In “Deitar a língua de fora”, Lisboa: Língua Morta, 2012, p. 51
Lousa
Lições
Não aprendi a colher a flor
sem esfacelar as pétalas.
Falta-me o dedo menino
de quem costura desfiladeiros.
Criança, eu sabia
suspender o tempo,
soterrar abismos
e nomear as estrelas.
Cresci,
perdi pontes,
esqueci sortilégios.
Careço da habilidade da onda,
hei-de aprender a carícia da brisa.
Trêmula, a haste
me pede
o adiar da noite.
Em véspera da dádiva,
a faca me recorda, no gume do beijo,
a aresta do adeus.
Não, não aprenderei
nunca a decepar flores.
Quem sabe, um dia,
eu, em mim, colha um jardim?
Mia Couto (Beira, Moçambique, 5 de julho de 1955). In “Idades cidades divindades”. Lisboa: Editorial Caminho, 2007
Site José Aníbal: 21 anos no ar!
Hoje, 18 de agosto, comemora-se com satisfação esta importante data. O site de José Aníbal está no ar de forma ininterrupta desde os seus tempos de Câmara Municipal e o seu objetivo sempre foi o de informar, debater e divulgar suas ideias e atividades como político. José Aníbal é economista, ex-senador por São Paulo, secretário de Estado por duas vezes, foi cinco vezes deputado federal e, pela capital, foi também vereador. Em 2024 foi eleito presidente do PSDB municipal de São Paulo.
Na sua trajetória seu site passou pela sua votação recorde para vereador da cidade de São Paulo em 2004, onde foi eleito com 165.880 votos. Seguiu com sua eleição para deputado federal em 2006 e em 2010, e depois continuou com sua escolha para secretário estadual de energia do Estado de São Paulo em 2011 e, em 2014, quando foi eleito primeiro suplente à senador na chapa encabeçada por José Serra. Em 2016 ele assumiu pela primeira vez o mandato no Senado Federal com a ida de José Serra para o Ministério das Relações Exteriores, e ficou no cargo até fevereiro de 2017. Voltou a assumir temporariamente a vaga de Serra no Senado Federal em agosto de 2021, após o titular se afastar por doença e pedir licença por 4 meses.
Fica aqui esse registro!
Cão azul
Três poemas
Num bairro moderno
O poodle fez pu-pu (delicadeza)
Fertilizando a erva (outrora relva)
No logradouro ensolarado (logrando
O quê? Poema de merda).
*
Num bairro moderno
Passinhos de passarinho pardacento
Viúva d’alma com gabardine
Passando estreita
No passeio do bairro.
*
Nesse bairro moderno
Havia desejos de vê-la
Jovem e já viúva
Passando
De flores queimadas e silêncios
E de lábios dizendo alarmes
Nos dedos, cuidados.
Jorge Fazenda Lourenço (Covilhã, Portugal, 1955). In “Fim de boca e mais poemas 1981-2023”, Companhia das Ilhas, 2023
Pedro: Neto de peixe, peixinho é
Um pouco da pintura do pequeno Pedro Brandão Castellano: Neto de Selma Daffrè, gravadora, pintora, aquarelista e professora de arte. Que diz singelamente:
“Eu sou vovó coruja… kkkkk”