No primeiro cansaço não sei o que perdi
amava-te como o refém arrastado sem pressas
amava-te diante do medo mais bonito de te amar
e a história deste sofrimento de oiro
move-se com a velocidade de uma doença fixa
gravitando nos confins perigosos da força do mel
e deitado no chão da sala oiço o rumor do mundo
e aprendo que morrer não significa nada
só podemos falar das imagens que se movem
ao encontro da loucura nesse estremecimento consentido
nessa loucura tua e nossa que ensina o mundo a voar
se nenhum receio no medo mais feliz
hoje digo que te amei ou que te amava ou que te amo
vou dizer que este poema não é teu
vou repetir mil vezes a impressão dos teus dentes
na tua música de foto e vento e lábios novos
mas vou negar tudo
acreditar que sim e que não negar
os que disse depois do silêncio
no primeiro cansaço mesmo antes de teu nome ou
mesmo muito depois de nós
Joaquim Cardoso Dias (Castelo Branco, Portugal, junho de 1973)