Fogo sobre fogo

O meu mamilo
no teu
mamilo

Só tu
sabes sorrir
na vertical

Gotas de orvalho
ligeiramente tingidas
de batom

Nem todos os frutos vermelhos
merecem o céu
da tua boca

Mais do que uma vez
atravessei a primavera
com os olhos fechados

A borboleta que poisou
no teu mamilo perdeu
vontade de voar

Vou ao céu
e venho-
-me

Não posso
amar
mais claro

Escrevo
com os dedos ainda longos
da carícia

Ainda agora em ti entrei
e já em todos os teus poros
me achei

Não é a rosas nem a violetas
nem a jasmim o cheiro
que me põe fora de mim

Qual é a minha
ou a tua
língua?

Não conheço outra
linguagem que não seja
a do orvalho

Na espessura do bosque
o que a minha mão procurava
era um mirtilo

Basta-me
o teu umbigo de vinho
para ficar bêbedo

Este fogo
que só com fogo
se pode apagar

Jorge Sousa Braga (Cervães, Portugal, 23 de dezembro de 1957)

Como é lindo o nosso popular, ensinando de sua forma à viver

A esperança é a última que morre
A maré não tá pra peixe
A mentira tem perna curta
A pressa é inimiga da perfeição
A união faz a força
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura
Águas passadas não movem moinhos
Antes só do que mal acompanhado
Cachorro que late não morde
Cada macaco no seu galho
Cão que ladra não morde
Cortar o mal pela raiz
De grão em grão a galinha enche o papo
De mãos abanando
Depois da tempestade vem a bonança
Despir um santo para vestir outro
Deus ajuda quem cedo madruga
Em boca fechada não entra mosca
Em casa de ferreiro, espeto de pau
Estar no mato sem cachorro
Filho de peixe, peixinho é
Gato escaldado tem medo de água fria
Mais vale um pássaro na mão do que dois voando
Não adianta chorar sobre o leite derramado
Nos menores frascos estão os melhores perfumes
O barato sai caro
O remendo ficou pior do que o soneto
Pau que bate em Chico, bate em Francisco
Pau que nasce torto, morre torto
Quando a porca torce o rabo
Quem canta seus males espanta
Quem espera sempre alcança
Quem não arrisca, não petisca
Quem não chora, não mama
Quem semeia vento, colhe tempestade
Quem vê cara não vê coração
Roupa suja se lava em casa
Saco vazio não para em pé
Um dia é da caça, outro do caçador

Ou no dizer de uma colaboradora do blog:

Isso tudo lembra Jung: “Não Freud e nem sai de cima”

Uma pedrada no segredo

A Manuel de Castro – Lisboa 1973 *

Uma pedrada no segredo
Um pontapé no silêncio
Uma facada no amor
Um murro no olho do poeta

Um delírio de copos no “Estibordo”
Uma joint ao canto da “Opinião”
Um beijo de louco nos lábios da louca
Uma cozinheira de cutelo na mão

Um poema volante nas mãos do Cinatti
Uma rosa pintada nos lábios da Eunice
Um canivete afiado pelo Cabeça de Vaca
Uma filha tua a arder de desejo

Um saco cheio de loucura nas mãos do Pacheco
Uma rutilante sombra acesa na noite escura
Um desenho do Délio escorrendo sangue
Uma vagabunda sentada nas escadinhas do Duque

Sonhando sonhando sonhando

* A ideia, nº. 73-74

João Carlos Raposo Nunes (Lisboa, Portugal, 1955). In “Saímos em bandos disparando brita, prata, fumos – Antologia de João Carlos Raposo Nunes”, Organização, edição e introdução de Nuno Miguel Neves, Maldoror, 2021, página 61

Notícias do cerco

os dias vão indo
caídos no papel,
e rasgá-los não os lava
da hora que vem depois.

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é tudo uma questão de senha.
a gente diz borboleta,
e o inimigo crucifica-a
nas paredes de cada manhã.

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é tudo tão previsível.
e não há quem saia ileso
de um golpe de Lua cheia.

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Emanuel Jorge Botelho (São Sebastião, Ponta Delgada, Portugal, 11 de agosto de 1950). In “Fecho as cortinas, e espero”