Mês: setembro 2025
Sol de primavera
Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou juntos outra vez
Já sonhamos juntos
Semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz
No que falta sonhar
Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim, não custa inventar
Uma nova canção que venha nos trazer
Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender
Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim, não custa inventar
Uma nova canção que venha trazer
Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender
Beto Guedes (Montes Claros, Minas Geris, 13 de agosto de 1951) / Ronaldo Bastos (Niterói, Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 1948). Três Pontas Edições Musicais, Canção de 1979
Cenas de Luiza e João num sítio distante
Sonhado em Ibiúna
Soneterapia
“desta vez acabo a obra”
gregório de matos
drummond perdeu a pedra: é drummundano
joão cabral entrou pra academia
custou mas descobriram que caetano
era o poeta (como eu já dizia)
o concretismo é frio e desumano
dizem todos (tirando uma fatia)
e enquanto nós entramos pelo cano
os humanos entregam a poesia
na geleia geral da nossa história
sousândrade kilkerry oswald vaiados
estão comendo as pedras da vitória
quem não se comunica dá a dica:
tó pra vocês chupins desmemoriados
só o incomunicável comunica
Augusto de Campos (São Paulo, 14 de fevereiro de 1931). Notas: Referências ao primeiro verso da “Dedicatória extravagante que o poeta faz destas obras ao mesmo governador satirizado”, do baiano Gregório de Matos Guerra (1636/ 1696); à outros poetas modernistas mais conhecidos como Carlos Drummond de Andrade (1902/ 1987) e João Cabral de Melo Neto (1920/ 1999) e ao compositor Caetano Veloso (1942); à Joaquim de Sousândrade (1833/ 1902), poeta romântico, autor de “O Guesa”, à Pedro Kilkerry (1885/ 1917), poeta simbolista baiano e à Oswald de Andrade (1890/ 1954), que são autores divulgados e revistos criticamente pelos concretistas, após longo silêncio e esquecimento sobre suas obras
Da biblioteca de Carmita
Lembrando em conversa recente que tive em Ourinhos com o primo Alexandre Araujo Silva resgatei nos guardados do sítio um dos livros compartilhados entre seu avô Ângelo Silva e minha mãe Carmita, ambos leitores dedicados. Acima mostro uma singela “arte” que fiz com um dos exemplares que encontrei lá, acrescida com a inscrição de outros três livros, juntamente com duas fotos das formaturas de mãezinha, dado que ela foi professora e se diplomou também como especialista em farmácia.
Maria do Carmo Ferreira Matosinho, * Motuca SP, 25 de março de 1926 – + Ourinhos SP, 5 de abril de 1966
Fumaça, gota sanguínea e empalhado
Digestão
A couve mineira tem gosto de bife inglês
Depois do café e da pinga
O gozo de acender a palha
Enrolando o fumo
De Barbacena ou de Goiás
Cigarro cavado
Conversa sentada
Oswald de Andrade (São Paulo, 11 de janeiro de 1890 — São Paulo, 22 de outubro de 1954)
Signos em fundo verde escuro
Os meninos
Verde, verde grama.
Negra, negra madrugada.
– Nas entranhas
dos meninos,
recém-vindos,
um rio corria
para serem ágeis
como pedras lavadas.
Negra, negra madrugada.
– Todavia,
o que corria
pela estrada
era o duro
vento frio,
negro sopro
d’água parada;
poça d’água
morto rio
que secava
nas entranhas
dos meninos
sem mais nada.
Verde, verde,
verde grama.
Negra, negra madrugada.
– Um rosto
em cada poça,
sem cavalo,
sem colheita,
terra batida
e solta,
espantalhos
pela cerca,
morta roça,
os meninos
recém-findos
eram a própria
cavalgada
de cavaleiros
fantasmas
no seu galope
de fome,
feito lobo
feito homem
feito mula sem cabeça
fugindo da noite espessa.
Verde, verde,
verde grama.
Negra, negra cavalgada.
Mário Chamie (Cajobi, São Paulo, 1 de abril de 1933 – São Paulo, 3 de julho de 2011). Curadoria de Luís Araujo Pereira