Desejos

Belos corpos de mortos que nunca envelheceram,
com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes,
jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas –
assim são os desejos que um dia feneceram
sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes
o prazer de uma noite ou a manhã luminosa.

Konstantinos Kaváfis (Alexandria, Egito, 29 de abril de 1863 – Alexandria, Egito, 29 de abril de 1933). In “Poesia de todos os tempos – Poemas”, 3ª edição, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1990. Tradução de José Paulo Paes

Lichtenstein na Luz e no sítio

Edifício Embassy, Avenida Prestes Maia, 931 – Luz, onde morei em meados dos anos 80 e do qual trago infinitas recordações, algumas pinturas e inspirados poemas e de onde assistia pela sacadinha do pequeno apartamento os desfiles de carnaval na época em que aconteciam na Avenida Tiradentes, ao lado. Esses desfiles das escolas de samba nessa avenida acabaram em 1990 e foram transferidos para o Anhembi, quando o Sambódromo foi inaugurado. O ponto alto desse prédio era o mural de Lichtenstein pintado em sua fachada nessa época.

Roy Fox Lichtenstein (Nova Iorque, Estados Unidos, 27 de outubro de 1923 — Nova Iorque, Estados Unidos, 29 de setembro de 1997) foi um pintor estadunidense identificado com a Pop Art. Na sua obra, procurou valorizar os clichês das histórias em quadrinhos como forma de arte, colocando-se dentro de um movimento que tentou criticar a cultura de massa. Esse quadrinho encontra-se no sítio e as três figurinhas encontrei na internet

Os mais doces bárbaros

Com amor no coração
Preparamos a invasão
Cheios de felicidade
Entramos na cidade amada
Peixe Espada, peixe luz
Doce bárbaro Jesus
Sabe quem é otário
Peixe no aquário nada
Alto astral, altas transas, lindas canções
Afoxés, astronaves, aves, cordões
Avançando através dos grossos portões
Nossos planos são muito bons
Com a espada de Ogum
E a benção de Olorum
Como num raio de Iansã
Rasgamos a manhã vermelha
Tudo ainda é tal e qual
E no entanto nada é igual
Nós cantamos de verdade
E é sempre outra cidade velha
Alto astral, altas transas, lindas canções
Afoxés, astronaves, aves, cordões
Avançando através dos grossos portões
Nossos planos são muito bons
Alto astral, altas transas, lindas canções
Afoxés, astronaves, aves, cordões
Avançando através dos grossos portões
Nossos planos são muito bons

Caetano Veloso (Santo Amaro, Bahia, 7 de agosto de 1942). Canção de 1992

Poema cujo início da parte II foi recitado de cabeça por Buñuel

I

Descalzo de las cosas
jqué polo sur el del alma!

Torre de los luceros
¡qué telegrama herido
de gritos lleva el viento!
Al corazón del mundo lo han matado
las flechas de los nuevos flecheros.

Y el eco deshilvana
la bobina sonora de todas las campanas.

II

La noche ajusticiada
en el patíbulo de un árbol.
Alegrías arrodilladas
le besan y ungen las sandalias

Vena
suavemente lejana
—cinturón del Globo—.

Arterias infinitas
mares del corazón que se desangra.

III

Ya el buque de los alios
con la brújula rota
está varado.
En el cielo
quietas a media asta
las miradas de los luceros.
Sólo una barcarola
ilumina los vientos
y oscurece las olas.

Rafael Alberti (Porto de Santa Maria, Cádis, Espanha, 16 de dezembro de 1902 — Porto de Santa Maria, Espanha, 28 de outubro de 1999). Poema publicado na edição de número 3 da revista “Horizonte” em 15 de dezembro de 1922

Tradução literal do trecho II feita parte por Rita Braga e parte por mim:

A noite executada
no patíbulo de uma árvore.
Alegrias ajoelhadas
beijam e ungem suas sandálias

Veia
suavemente distante
—cinturão do Globo—.

Artérias infinitas
mares do coração sangrando.

Luis Buñuel (Calanda, Espanha, 22 de fevereiro de 1900 — Cidade do México, México, 29 de julho de 1983). Fac-símile da página 84 e de outras duas de seu livro autobiográfico intitulado “Meu último suspiro” (originalmente “Mi último suspiro”), escrito por esse renomado cineasta espanhol com a ajuda de Jean-Claude Carrière (Colombières-sur-Orb, Hérault, França, 17 de setembro de 1931 – Paris, França, 8 de fevereiro de 2021). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982. Tradução de Rita Braga

Círios

Os dias do futuro se erguem à nossa frente
como círios acesos, em fileira –
círios dourados, cálidos e vivos.

Os dias idos ficaram para trás,
triste fila de círios apagados;
os mais próximos ainda fumaceiam,
círios pensos e frios e derretidos.

Não quero vê-los, que me aflige o seu aspecto.
Aflige-me lembrar a luz de outrora.
Contemplo, adiante, meus círios acesos.

Não quero olhar pra trás e, trêmulo, notar
como se alonga depressa a fileira sombria,
como crescem depressa os círios apagados.

Konstantinos Kaváfis (Alexandria, Egito, 29 de abril de 1863 – Alexandria, Egito, 29 de abril de 1933). In “Poesia de todos os tempos – Poemas”, 3ª edição, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1990. Tradução de José Paulo Paes

1650 – 1720, Confederação dos Kariri

Entendi nada, respondi, girando os olhos
pra catraia da outra aldeia
nos chamando pra guerrear juntas
usando aquela língua véa feia.

A essa altura já fazia bem três anos
que botamos as diferenças de lado
tentando botar pra correr
o inimigo comum, insuportável.

Olhe que mesmo sem gostar
daquele bando de biraia
pouco tempo antes quase tomamos Natal
de tão valentes e organizadas!

Bora noiada ti vai ficar batendo boca ou vem pra
emboscada? gesticulou a tribufu sem me dar
escolha. Não gosto de tu mas vou pela peitica,
respondi levantando, uma mão no bacamarte

e a outra na azagaia, sem fazer ideia da chacina
que viria na sela dos paulistas, mas não importa:
só quem não pode com o pote
é que não pega na rodilha.

Adelaide Ivánova (Recife, 1982). In “Asma”, Editora Nós, 2024. Com esse livro de poesia ela, que é de ascendência russa, foi semifinalista ao Prêmio Jabuti 2025