Ah, 33 delícias de nosso português…

acácia
alguidar
alhures
amiúde
amora
caramba
circunstância
colapsar
cunhã
diadema
eclipse
etéreo
fac-símile
fogaréu
gorjeia
guirlanda
magnólia
mangaio
mormente
oiro
pendão
pirilampo
pitéu
pontiagudo
profícua
quiçá
repente
sagu
simbora
tiara
turmalina
uruca
zabumba

“E se elas vierem todas
Numa guirlanda de flechas
Defenderei
Defenderei
Defenderei”

Canção e calendário – Oswald de Andrade

Vindo de Bezerros – PE mais essa pérola dita por um saudoso xilogravurista e cordelista

Esse conhecido e admirado José contou em entrevista concedida à Edna Matosinho de Pontes em fevereiro de 2013 de onde vinha a sua inspiração para a confecção de suas famosas xilogravuras, e afirmou:

“Vem daqui mesmo do que eu vejo, do que eu sinto, do que eu penso. Do que acontece, das lenda, do folclore. O dia a dia do povo, a convivência, a tristeza, a alegria. Tudo isso dá cordel e dá também gravura”.

J. Borges (Bezerros – PE, 1935 – 2024) – José Francisco Borges, começou cedo pois aos oito anos já trabalhava na terra com o pai. Foi oleiro, confeccionou brinquedos artesanais e vendeu livros de cordel. Nos anos 50 José resolveu que iria escrever cordel e daí partiu para as xilogravuras. Dono de uma técnica própria de colorir as imagens, atendia pedidos para representar cotidiano do pobre, o cangaço, o amor, os castigos do céu, os mistérios, os milagres, os crimes, a corrupção, os folguedos populares, a religiosidade, a picardia, sempre ligados ao povo nordestino. Essa foto foi batida por Edna.

Veja mais essa pérola dita por esse pintor naïf e músico tão popular

Oriundo do nordeste, Vicente Ferreira, mais conhecido como “Seo Vicente” ou Ferreirinha”, em entrevista concedida à Edna Matosinho de Pontes em maio de 2008, quando perguntado “E o senhor aprendeu com quem (a pintar)?”, respondeu:

“Eu não tive professor, como eu digo, eu aprendi com os índios, observando os índios a se pintar uns aos outros.”

Vicente Ferreira (Baturité – CE, 1928 – Maceió – AL, 2012) – Vicente Ferreira de Lima nasceu no Ceará, mas estabeleceu-se em Maceió – AL e lá ganhou a vida como sanfoneiro, animando forrós pela periferia da cidade, trabalhou também em circo e na agricultura, lidando com a terra. Dividia o seu tempo entre a rede ferroviária e seu cavalete de pintura. A sua obra desperta a curiosidade por sua semelhança com o bordado, provavelmente sua fonte inconsciente de inspiração técnica. Foto divulgada pelo Instituto Internacional de Arte Naif – IIAN.

andrômaca

não conheci troia
ruínas a mais ruínas a menos
do outro lado do oceano
tudo o que aprendi foi nesse alfabeto moderno
eis o momento apoteótico minha obsessão
nossos despojos é troia
minhas amigas encurraladas
na mesa do chefe é troia
a jovem saco preto é troia
a jovem saco preto no rosto
festa de luxo é troia
as baratas roendo o cu
da guerrilheira comunista é troia
é troia meu companheiro baleado no rosto
é troia os corpos desovados no mangue
as lideranças perseguidas é troia
as vítimas de feminicídio é troia
os milicos os fascistas os tiranos
disparam todos contra troia
a filosofia o direito o ocidente
nascem da devastação de troia
agora você entende por que voltei?
não conheci troia mas a entrevejo esplêndida
nas carícias clandestinas durante os bombardeios
e gás de pimenta nas barricadas
nas clínicas de aborto nos abrigos
inusitados na desobediência
no canto sim no canto
eu não vou me entregar
você grita eu repito
através dos séculos
minha irmã
não há poemas para ti
nenhuma linha sobre cibele
onde perdemos o tino quando virou espetáculo
maldita literatura e seu panteão de vitórias
me abrace forte a explosão está próxima
ele há de vir

Luiza Romão (Ribeirão Preto, São Paulo, 1992). In “Também guardamos pedras aqui”, Editora Nós, 2021. Com esse livro foi vencedora do Prêmio Jabuti de Poesia, nesse mesmo ano de seu lançamento

Mais uma pérola da arte popular da Terra Brasilis

Getulio – o criativo e conhecido reciclador do Rio de Janeiro, diz, em entrevista dada à Edna Matosinho de Pontes feita em outubro de 2014, se referindo ao turístico bairro carioca:

“Aí cheguei em Santa Teresa, criei logo o bondinho, o bondinho que é o coração de Santa Teresa, né?”.

Getulio das Sucatas (Espera Feliz – MG, 1955) – Em Santa Teresa – RJ, no “Bonde do Getúlio”, trabalha Getulio Damano, reconhecido artista popular, que recebeu uma ordem da Prefeitura para tirar o sua banca das ruas. Sua produção: carros, caminhões, casinhas mobiliadas de boneca, bonecos, todos batizados segundo sua inspiração ao término da confecção. Foto tirada por Edna.

De ouro nada pode se manter

O primeiro verde da Natureza é ouro,
Seu mais árduo tom a manter.

Sua primeira folha é flor;
Mas só por uma hora.

Então a folha se reduz a folha.
Assim o Éden afundou na dor.

Assim a aurora desce ao dia.
De ouro nada pode se manter.

Robert Frost (São Francisco, Califórnia, Estados Unidos, 26 de março de 1874 — Boston, Estados Unidos, 29 de janeiro de 1963), “Nothing gold can stay”. Tradução de Maria da Glória Bordini