VIII
Duro espelho o papel em branco
restitui apenas o que eras.
O papel em branco fala com a tua voz
a tua própria voz
não com a que te agrada;
tua música é a vida
que dissipaste.
Podes recuperá-la se quiseres
se te apegares ao que indiferente
te atira para trás
ao ponto de partida.
Viajaste, viste muitas luas muitos sóis
tocaste vivos e mortos
sentiste a dor do jovem
e o gemido da mulher
e o amargor do menino ainda imaturo —
o que sentiste rui sem fundamento
se não te confias ao vazio.
Talvez ali encontres o que julgavas já perdido:
o renovo da juventude, o justo sossobro da idade.
Tua vida é o que deste
esse vazio é o que deste
o papel em branco.
Giorgos Seféris (Esmirna, Turquia, 13 de março (29 de fevereiro, no calendário juliano) de 1900 — Atenas, Grécia, 20 de setembro de 1971). Poeta laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1963. In “Antologia Poemas”, São Paulo: Editora Nova Alexandria, 1995. Tradução de José Paulo Paes