Dois poemas do filósofo, poeta lírico e romancista alemão Hölderlin

A árvore

Quando menino, tímido te plantei
     Bela planta! quão diferentes nos vemos
Magnífica estás                              e 
     como um menino.

§

Metade da vida

Peras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a Lagoa.
Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!

Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? E aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; à fria nortada
Rangem os cata-ventos.

Friedrich Hölderlin (Lauffen am Neckar, Alemanha, 20 de março de 1770 — Tübingen, Alemanha, 7 de junho de 1843). “A árvore”, organização e tradução Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida, 1959 e “Metade da vida”, tradução Manuel Bandeira, in “Estrela da vida inteira”. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1966

Agitos recentes

Eu no Aterro do Flamengo – Rio de Janeiro (em frente à palmeira Talipot ou Corypha Umbraculifera, foto de Veralu Andrade – 21 9 8075-4443), no Museu de Arte Sacra (Sala do metrô Tiradentes vendo presépios, foto de Iran Monteiro – 11 9 8496-5403), em casa (Aniversário de 20 anos do João) e na Fazenda das Cabras – Campinas (Casamento da Marina e Mathias, foto de Guilherme / Fotocafé Mini Wedding – 19 9 9739-2813).

Samba de la Bénédiction / Samba da Bênção

Il vaut mieux être joyeux que d’être triste
É melhor ser alegre que ser triste

La joie est la meilleure chose qui existe
Alegria é a melhor coisa que existe

C’est comme la lumière dans le cœur
É assim como a luz no coração

Mais pour faire un samba avec beauté
Mas pra fazer um samba com beleza

Il faut un peu de tristesse
É preciso um bocado de tristeza

Il faut un peu de tristesse
É preciso um bocado de tristeza

Sinon, on ne fait pas de samba, non
Senão, não se faz um samba não

Sinon, c’est comme aimer une femme juste belle
Senão é como amar uma mulher só linda

Et alors ? Une femme doit avoir
E daí? Uma mulher tem que ter

Quelque chose au-delà de la beauté
Qualquer coisa além de beleza

Quelque chose de triste
Qualquer coisa de triste

Quelque chose qui pleure
Qualquer coisa que chora

Quelque chose qui ressent la nostalgie
Qualquer coisa que sente saudade

Un balancement d’amour blessé
Um molejo de amor machucado

Une beauté qui vient de la tristesse
Uma beleza que vem da tristeza

De savoir qu’elle est femme
De se saber mulher

Fait juste pour aimer
Feita apenas para amar

Pour souffrir pour son amour
Para sofrer pelo seu amor

Et pour être juste pardon
E pra ser só perdão

Faire du samba ce n’est pas raconter des blagues
Fazer samba não é contar piada

Et celui qui fait du samba comme ça n’est rien
E quem faz samba assim não é de nada

Le bon samba est une forme de prière
O bom samba é uma forma de oração

Parce que le samba est la tristesse qui danse
Porque o samba é a tristeza que balança

Et la tristesse a toujours un espoir
E a tristeza tem sempre uma esperança

La tristesse a toujours un espoir
A tristeza tem sempre uma esperança

Qu’un jour elle ne soit plus triste, non
De um dia não ser mais triste não

Comme ces gens qui se baladent par ici
Feito essa gente que anda por aí

Jouant avec la vie
Brincando com a vida

Attention, camarade !
Cuidado, companheiro!

La vie est à prendre au sérieux
A vida é pra valer

Et ne te trompe pas, il n’y en a qu’une
E não se engane não, tem uma só

Deux, même, c’est bien
Duas mesmo que é bom

Personne ne va me dire qu’il y en a
Ninguém vai me dizer que tem

Sans prouver bien prouvé
Sem provar muito bem provado

Avec un certificat passé au bureau des cieux
Com certidão passada em cartório do céu

Et signé en bas : Dieu
E assinado embaixo: Deus

Et avec une signature reconnue !
E com firma reconhecida!

La vie n’est pas une blague, mon ami
A vida não é de brincadeira, amigo

La vie est l’art de la rencontre
A vida é arte do encontro

Bien qu’il y ait tant de désaccords dans la vie
Embora haja tanto desencontro pela vida

Il y a toujours une femme qui t’attend
Há sempre uma mulher à sua espera

Avec les yeux pleins d’affection
Com os olhos cheios de carinho

Et les mains pleines de pardon
E as mãos cheias de perdão

Mets un peu d’amour dans ta vie
Ponha um pouco de amor na sua vida

Comme dans ton samba
Como no seu samba

Mets un peu d’amour dans une cadence
Ponha um pouco de amor numa cadência

Et tu verras que personne au monde ne bat
E vai ver que ninguém no mundo vence

La beauté d’un samba, non
A beleza que tem um samba, não

Parce que le samba est né là-bas en Bahia
Porque o samba nasceu lá na Bahia

Et si aujourd’hui il est blanc dans la poésie
E se hoje ele é branco na poesia

Si aujourd’hui il est blanc dans la poésie
Se hoje ele é branco na poesia

Il est trop noir dans le cœur
Ele é negro demais no coração

Moi, par exemple, le capitaine des esclaves
Eu, por exemplo, o capitão do mato

Vinicius de Moraes
Vinicius de Moraes

Poète et diplomate
Poeta e diplomata

Le blanc le plus noir du Brésil
O branco mais preto do Brasil

Dans la ligne directe de Xangô, saravá !
Na linha direta de Xangô, saravá!

La bénédiction, Madame
A bênção, Senhora

La plus grande ialorixá de Bahia
A maior ialorixá da Bahia

Terre de Caymmi et João Gilberto
Terra de Caymmi e João Gilberto

La bénédiction, Pixinguinha
A bênção, Pixinguinha

Toi qui as pleuré dans la flûte
Tu que choraste na flauta

Tous mes chagrins d’amour
Todas as minhas mágoas de amor

La bénédiction, Sinhô, la bénédiction, Cartola
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola

La bénédiction, Ismael Silva
A bênção, Ismael Silva

Votre bénédiction, Heitor dos Prazeres
Sua bênção, Heitor dos Prazeres

La bénédiction, Nelson Cavaquinho
A bênção, Nelson Cavaquinho

La bénédiction, Geraldo Pereira
A bênção, Geraldo Pereira

La bénédiction, mon bon Cyro Monteiro
A bênção, meu bom Cyro Monteiro

Toi, neveu de Nonô
Você, sobrinho de Nonô

La bénédiction, Noel, ta bénédiction, Ary
A bênção, Noel, sua bênção, Ary

La bénédiction, tous les grands
A bênção, todos os grandes

Sambistes du Brésil
Sambistas do Brasil

Blanc, noir, mulâtre
Branco, preto, mulato

Beau comme la peau douce d’Oxum
Lindo como a pele macia de Oxum

La bénédiction, maestro Antonio Carlos Jobim
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim

Partenaire et ami cher
Parceiro e amigo querido

Qui as déjà voyagé tant de chansons avec moi
Que já viajaste tantas canções comigo

Et il y a encore tant à voyager
E ainda há tantas por viajar

La bénédiction, Carlinhos Lyra
A bênção, Carlinhos Lyra

Partenaire à cent pour cent
Parceiro cem por cento

Toi qui unis l’action au sentiment
Você que une a ação ao sentimento

Et à la pensée
E ao pensamento

La bénédiction, la bénédiction, Baden Powell
A bênção, a bênção, Baden Powell

Ami nouveau, partenaire nouveau
Amigo novo, parceiro novo

Qui as fait ce samba avec moi
Que fizeste este samba comigo

La bénédiction, mon ami
A bênção, amigo

La bénédiction, maestro Moacir Santos
A bênção, maestro Moacir Santos

Tu n’es pas un seul, tu es tant comme
Não és um só, és tantos como

Mon Brésil de tous les saints
O meu Brasil de todos os santos

Y compris mon Saint Sébastien
Inclusive meu São Sebastião

Saravá ! La bénédiction, que je vais partir
Saravá! A bênção, que eu vou partir

Je vais devoir dire adieu
Eu vou ter que dizer adeus

Mets un peu d’amour dans une cadence
Ponha um pouco de amor numa cadência

Et tu verras que personne au monde ne bat
E vai ver que ninguém no mundo vence

La beauté d’un samba, non
A beleza que tem um samba, não

Parce que le samba est né là-bas en Bahia
Porque o samba nasceu lá na Bahia

Et si aujourd’hui il est blanc dans la poésie
E se hoje ele é branco na poesia

Si aujourd’hui il est blanc dans la poésie
Se hoje ele é branco na poesia

Il est trop noir dans le cœur
Ele é negro demais no coração

Baden Powell (Varre-Sai, Rio de Janeiro , 6 de agosto de 1937 – Rio de Janeiro, 26 de setembro de 2000) / Vinícius de Moraes (Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913 – Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980). Há 57 anos, no Theatre de L’Olympia, em Paris, Elis Regina (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 17 de março de 1945 — São Paulo, 19 de janeiro de 1982) cantou “Samba da bênção”. Ela está mais viva do que nunca em nossos corações! 💞. Tradução feita por Pierre Barouh (Paris, França, 19 de fevereiro de 1934 – Paris, França, 28 de dezembro de 2016)

Baudelaire

Para Anita Forrer/ em 14 de abril de 1921

Somente o poeta juntou as ruínas
de um mundo desfeito e de novo o fez uno.
Deu fé da beleza nova, peregrina,
e, embora celebrando a própria má sina,
purificou, infinitas, as ruínas:

assim o aniquilador tornou-se mundo.

Baudelaire
Für Anita Forrer/ aum 14. April 1921

Der Dichter einzig hat die Welt geeinigt,
die weit in jedem auseinanderfällt.
Das Schöne hat er unerhört bescheinigt,
doch da er selbst noch feiert, was ihn peinigt,
hat er unendlich den Ruin gereinigt:

und auch noch das Vernichtende wird Welt.

Rainer Maria Rilke (Praga, Império Austro-Húngaro, atual República Tcheca, 4 de dezembro de 1875 — Valmont, Suíça, 29 de dezembro de 1926). In “Poemas”, seleção, tradução e introdução José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. Posted by Antonio Cicero

Além do espelho

Quando eu olho o meu olho além do espelho
Tem alguém que me olha e não sou eu
Vive dentro do meu olho vermelho
É o olhar de meu pai que já morreu

O meu olho parece um aparelho
De quem sempre me olhou e protegeu
Assim como meu olho dá conselho
Quando eu olho no olhar de um filho meu

A vida é mesmo uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

Sempre que um filho meu me dá um beijo
Sei que o amor de meu pai não se perdeu
Só de olhar seu olhar sei seu desejo
Assim como meu pai sabia o meu

Mas meu pai foi-se embora no cortejo
E no espelho eu chorei porque doeu
Só que vendo meu filho agora eu vejo
Ele é o espelho do espelho que sou eu

A vida é mesmo uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

Toda imagem no espelho refletida
Tem mil faces que o tempo ali prendeu
Todos têm qualquer coisa repetida
Um pedaço de quem nos concebeu

A missão de meu pai já foi cumprida
Vou cumprir a missão que Deus me deu
Se meu pai foi o espelho em minha vida
Quero ser pro meu filho espelho seu

A vida é mesmo uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

A vida é mesmo uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

O meu medo maior é o espelho se quebrar
O meu medo maior é o espelho se quebrar
O meu medo maior é o espelho se quebrar
O meu medo maior é o espelho se quebrar

O meu medo maior é o espelho se quebrar
O meu medo maior é o espelho se quebrar
O meu medo maior é o espelho se quebrar
O meu medo maior é o espelho se quebrar

O meu medo maior é o espelho se quebrar
O meu medo maior é o espelho se quebrar
O meu medo maior é o espelho se quebrar
O meu medo maior é o espelho se quebrar

Paulo César Pinheiro (Rio de Janeiro, 28 de abril de 1949) / João Nogueira (Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1941 — Rio de Janeiro, 5 de junho de 2000). Vivas ao Clube do Samba!