Quatro bichos recortados de Fernanda Eva

Em setembro de 2009, dentro da mostra “Oxigênio”, ocorreram uma série de eventos que fizeram parte das comemorações pelos 96 anos do Parque Buenos Aires (Higienópolis, São Paulo). Oito artistas fizeram intervenções e instalações no local.

Pintados por Fernanda Eva sobre placas de metal, oito animais silvestres foram colocados num dos corredores do parque. A ideia na época era que os frequentadores os encontrassem escondidos na mata. Após a mostra, Eva comentou que doaria as peças, que ficariam permanentemente expostas no local.

Disse ela, autora das obras intituladas “Bichos Nativos”: “As pessoas vêm ao parque desarmadas e acabam surpreendidas pelas intervenções”.

No entanto ela me escreveu ontem dizendo: “Eles estão [atualmente] no espaço do Muzzi na Vila Madalena. O parque não quis pagar o restauro, então estão com ele. Moro em Portugal agora, mas ainda tenho o studio com obras no Butantã.”

Fernanda Eva é artista plástica formada em pintura pelo “Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo” 1996, e “história da arte” na FAAP 1996 – São Paulo. É mestra em poéticas visuais pela ECA – Universidade de São Paulo (2011). Seu mestrado fala da sua produção de obras com a temática do paraíso. Nos anos de 2015 e 2016 fez residência artística em Portugal onde desenvolveu a temática dos azulejos portugueses com seus animais, monumentos e personagens típicos. De volta ao Brasil desenvolveu a serie com azulejos portugueses no Brasil e animais brasileiros. Em 2017 fez residência em Paris e em 2018 fez residência na Dinamarca no ateliê Debora Muskat. Atualmente está pintando em Monchique, vila portuguesa no Algarve, Portugal, no atelier da Porca Preta.

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Sol negro

Acordar é voltar a ser,
re-acender num escuro cúbico;
e os primeiros passos que dou
em meu re-ser são inseguros.

Re-ser em tal escuridão
é como navegar sem bússola.
Eu a tenho, ali, a meu lado,
num sol negro de massa escura:

que é a de tua cabeleira,
farol às avessas, sem luz,
e que me orienta a consciência
com a luz cigana que reluz.

João Cabral de Melo Neto (Recife, Pernambuco, 9 de janeiro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1999). In “Crime na calle Relator; Sevilha andando”, Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2011

Tetê Fernandes: Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (APBP)

Tetê Fernandes

Mãe, esposa e artista!: “Meu nome é Terezinha Irani de Oliveira Fernandes Rodrigues, conhecida como Tetê Fernandes. Sou artista plástica há mais de 15 anos e pinto com a boca, por conta de uma deficiência de nascença que chama artrogripose múltipla congênita, que afetou meus membros inferiores e superiores. Tenho 40 anos com muito orgulho, sou casada e tenho quatro filhos lindos, carinhosos, bagunceirinhos, mas qual criança não é assim, não é mesmo!? Consigo conciliar bem e ter o tempo para cada função: de mãe, esposa, dona de casa e artista. Feliz com minha vida agitada. Estou na Associação dos Pintores com a Boca e os Pés desde 2008 e sou muito feliz por fazer parte dessa família de artistas do mundo inteiro. Sou muito grata por ver minhas obras rodando o mundo. Hoje em dia desenvolvi outra técnica de pintura, pois com o descobrimento da asma tive que optar pelo lápis de cor para não fazer mal. E deu certo! Hoje consigo um resultado tão bom quanto a pintura com tinta a óleo. Vejo que estou melhorando a cada dia e não pretendo parar de pintar com lápis.”

👨🎨 Artista plástica da APBP
Estilo de pintura: Com a boca
Técnica: Lápis de cor
Título da obra: “A dama da arte”

APBP Brasil
Arte
A APBP é parte de uma associação internacional de artistas que, devido à sua deficiência física, pintam belas obras de arte com a boca ou os pés.

Contatos:
APBP – Rua Tuim, 426 – Moema – São Paulo/ SP – CEP: 04514-101
(11) 5053-5100
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17

Um pouquinho de Loucura
Ao chegar a Primavera
Faz bem até para o Rei,
Mas veja o Bobo da Corte –
É ele que está com Deus
Pondera essa cena tremenda
A Experiência estupenda
E diz: “Esses Verdes são todos meus!”

Emily Dickinson (Amherst, Condado de Hampshire, Massachusetts, Estados Unidos, 10 de dezembro de 1830 – Amherst, 15 de maio de 1886). In “Loucas Noites – 55 poemas” (Wied niglis – 55 poems), tradução e comentários de Isa Mara Lando, Barueri – São Paulo: Disal Editora, 2010

O marginal Clorindo Gato (Trecho final)

Detalhe da capa do livro criada por Oscar Niemeyer

Grandes máquinas desbravam
a selva densa. Operários
encontram em dois lugares
o mesmo quadro radiante:

um lírio florindo pleno,
outro em plena floração
e em volta aos dois o esplendor
de sublime claridade.

Era no fundo da mata
e até no fundo da noite
os lírios resplandeciam
criando, em círculo, a aurora.

Emocionados correram
espalhando a estranha nova.
Nem os mais sábios sabiam
daqueles fatos longínquos.

As mais díspares versões
circularam pelo vídeo,
umas contando de um deus
que se perdera na Terra,

do diabo outras falando
e de suas diabolices.
Interpretações científicas,
herméticas, passionais,

sucediam-se, enredavam-se
sem que os doutores achassem
uma explicação plausível
para o botânico fato.

Um simples trator esmaga
os lírios luminescentes.
Os arranha-céus cresceram,
nasceram novas crianças,

vieram outros marginais,
outros iníquos eventos,
resignações e protestos,
e não se falou mais nisso.

Clorindo Gato

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). In “O marginal Clorindo Gato”, coleção depoimentos, 2º. volume, Rio de Janeiro: Avenir Editora, 1978

Biografia

Nascera
mais que perfeito
pretérito;
caíra
meteorito gelado
logo aquecido em caldos:
gripes, diarreias, pecados.
O mundo – comera-o
logo – cagara-o
Crescera
tornara-se gente
sólida obra
quente.
Descobrira-se limite
entre Mooca e Brás,
um sabe a tomate
outro a gás.
Envelhecera
entre medo e cansaço
baço
como de resto
sói acontecer.

Tom Figueiredo. In “Poesia possível”. Mairiporã – São Paulo: Livraria Editora Veredas, 1991

Na contracapa:

“…poesia é droga
o corpo rejeita
a alma cobra”

Tom Figueiredo