Mês: fevereiro 2026
Sonho
Meu coração repousa junto à fonte fria.
(Enche-a com teus fios,
aranha do esquecimento.)
A água da fonte sua canção lhe dizia.
(Enche-a com teus fios,
aranha do esquecimento.)
Meu coração desperto seus amores dizia.
(Aranha do silêncio,
tece ali teu mistério.)
A água da fonte o escutava sombria.
(Aranha do silêncio,
tece ali teu mistério.)
Meu coração se curva sobre a fonte fria.
(Mãos brancas, distantes,
detende as águas.)
E a água o leva cantando de alegria.
(Mãos brancas, distantes,
nada fica nas águas.)
Federico Garcia Lorca (Fuente Vaqueros, Andaluzia, Espanha, 5 de junho de 1898 – Víznar e Alfacar, Granada, Espanha, 18 de agosto de 1936). In “Poemas de amor de Federico Garcia Lorca: Remansos de amor – Antologia”. Organização Luiz Raul Machado; tradução Floriano Martins, Rio de Janeiro: Ediouro Publicações, 1998
Tinta Bic azul
Depois de um dia e meio sem luz elétrica em casa me ocorreu postar essa pintura…
Poesia africana
Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas
Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa
No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas
E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone
Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.
António Agostinho Neto, conhecido por Agostinho Neto (Aldeia de Kaxicane, região de Icolo e Bengo, Angola, 17 de setembro de 1922 – Moscou, Rússia, 10 de setembro de 1979). Foi um médico, escritor e político angolano. Foi Presidente do Movimento Popular de Libertação de Angola e em 1975 tornou-se o primeiro Presidente de Angola, ficando até 1979. Em 1975-1976 foi-lhe atribuído o Prêmio Lenin da Paz
Espiral escuro pintado com João 1
Em memória de W.B. Yeats († Jan. 1939)
I
Morreu no rigor do inverno:
Os ribeiros estavam gelados, os aeroportos quase desertos,
A neve desfigurava as estátuas públicas;
O mercúrio afogava-se na boca do dia agonizante.
Todos os instrumentos que possuímos
Concordam que o dia da sua morte foi escuro e frio.
Longe da sua doença,
Os lobos corriam nas florestas verdejantes,
Cais sedutores não tentavam os rios campestres;
A voz das carpideiras
Manteve a morte do poeta afastada dos seus poemas.
Mas para ele foi a sua última tarde,
Uma tarde de enfermeiras e boatos;
As províncias do seu corpo revoltaram-se,
As praças do seu espírito estavam desertas.
O silêncio invadiu os subúrbios,
A corrente dos seus sentidos estancou; ele tornou-se os seus admiradores.
Agora está espalhado por inúmeras cidades,
Inteiramente oferecido a afectos estranhos,
Para encontrar a sua felicidade noutro bosque
E ser castigado por um código estrangeiro.
As palavras de um morto
Modificam-se nas entranhas dos vivos.
Mas na importância e no barulho de amanhã
Quando, como animais, os corretores berrarem no recinto da Bolsa
E os pobres sofrerem como estão acostumados
E na cela de si, cada um se convencer que é livre,
Uns poucos milhares pensarão neste dia,
Como quem pensa num dia em que fez algo pouco habitual.
Todos os instrumentos que possuímos
Concordam que o dia da sua morte foi escuro e frio.
W.H. Auden (York, Reino Unido, 21 de fevereiro de 1907 — Viena, Áustria, 29 de setembro de 1973). In “Massacre dos inocentes (Uma antologia)”. Seleção, tradução e notas de José Alberto Oliveira. Lisboa: Assírio & Alvim, 1994
Nota: William Butler Yeats , muitas vezes apenas designado por W.B. Yeats (Sandymount, Dublin, Irlanda, 13 de junho de 1865 — Roquebrune-Cap-Martin, França, 28 de janeiro de 1939)
Sereia
“Dia 2 de fevereiro
dia de festa no mar
eu quero ser o primeiro
prá saudar Yemanjá“ (Dorival Caymmi)
Salve Yeomojá!!!! Odoyá
Nos abençõe, grande mãe
Bênção, asè
⭐️ 💛 🌼 🧜🏼♀️ 🙏
Lembrado no Instagram por Paulo Brito (@paulo_brito_musica)
Iara, a mulher verde
Neste país de coisas em excesso
o sol me agride, o azul passa da conta.
No entanto, os poucos beijos que te peço
o teu amor futuro me desconta.
De tanto céu tenho a cabeça tonta.
O meu jornal é todo em verde impresso.
Só tu, a quem já um pássaro amedronta,
te fechas no mais íntimo recesso…
No país do excessivo, és muito pouca.
Vê a borboleta jovem, como esvoaça.
Vê como nos convida a manhã louca!
Por que seres assim, se tudo é assombroso,
se a própria nuvem branca – e com que graça –
só falta vir pousar em nosso ombro?
Cassiano Ricardo (São José dos Campos , São Paulo, 26 de julho de 1895 — Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1974). In “Grandes sonetos de nossa língua”. Organização e seleção de José Lino Grünewald. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1987