O leque (variações)

I

Linha oblíqua
oculta desoculta
o instante breve
cores exalta
do negro escarlate.
Ela e o leque: a aragem esconde
em poço de sombra
a curva do pescoço
o colo branco.

II

Gesto náufrago
desvela o perfil da beleza
(o leque imita o vento)
e um seio acaricia
no leve perpassar.

III

Silabário da alma
longe leva asas voo
sem nada revelar
do sopro.
É um calado dizer
do muito ou nada
metade encantada
do mistério.

IV

Sublinham os olhos
o leve movimento
do leque. Anunciam
o início ou algo terminado.
Mas o que esperar
do iluminado frêmito?

V

O sim-não do leque
rabisca sobre a face
um sorriso
que escapa.

VI

Ser um leque em suas mãos
ser trêmula pérola
junto ao coração.
Tudo oscila entre sombra e luz.
O leque: ladrão sutil
só deixa o perfil
que seduz.

VII

O que falam se o sorriso
oculta as palavras
e o leque, o sorriso?
Mãos longas
agitam o ar.
Como imaginar
um desenho
de perfis aéreos
(bem talhados)
mas sempre inacabados?

VIII

O leque pousado
no abandono.
Ao lado ela dorme, calma,
e nem sonhar parece.
O leque imóvel: um deus
do instante
negro-cintilante.

IX

Como vê-la se o leque
é ciumento?
O perfil se desfaz
no vento. Alguém o refaz
traço a traço.

Erguem-se os braços
movimento da graça –
devolvendo face,
cabelos, tranças.

Fios dispersos
se entretecem
nas flores despertas
da fronte.

X

A mão segura o leque.
Fundem-se tons de ouro e rosa
na face enigmática
em fragmentos.

Como percebê-lo se o aroma
a esconde em redoma
e o olhar negro brilhe
um só momento?

A música emudece
pequena torna-se a boca
e o esplendor do corpo –
taça de flor única.

Seria o tato possível
no cetim dos braços?
Imagem que o leque inventa
e abandona no ar.

Ou é o leque a invenção
da face semi-oculta?

Dora Ferreira da Silva (Conchas, São Paulo, 1º de julho de 1918 — São Paulo, 6 de abril de 2006). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 18 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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