Turris eburnea.
Que o poeta brutalista é o espeto do cão.
Seu lar esburacado na lapa abrupta.
Acolá ele vira onça e cutuca o mundo com vara curta.
O mundo de dura crosta é de natural mudo,
e o poeta é o anjo da guarda do santo do pau-oco.
Abre os poros, pipoca as pálpebras, e, com a pá virada, mija em leque no ururu, malocado
na cruz da encruzilhada. Cachaça para capotar e enrascar-se em palpos de aranha. Ó mundo de surdas víboras sem papas nas línguas cindidas, serpes, serpentes,
já que o poeta mimético se lambuza de mel silvestre, carrega antenas de gafanhoto mas
não posa de profeta:
“Ó voz clamando no deserto”.
Pois eu, pitonista, falo que ele não permite que sua pele crie calo
dado que o mundo é de áspera epiderme
como a casca rugosa de um fero rinoceronte
ou de um extrapoemático elefante
posto que
nas entranhas do poema os estofos do elefante ainda são sedas e delicadezas e carências de humano paquiderme. É o mundo ocluso e mouco amasiado ao poeta gris e oco.
Caatinga de grotão seco atada à gamela de pirão pouco.
Suportar a vaziez.
Waly Salomão (Jequié, Bahia, 3 de setembro de 1943 – Rio de Janeiro, 5 de maio de 2003)/ Roberto Frejat (Rio de Janeiro, 21 de maio de 1962). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999