Jorge de Lima, panfletário do caos

Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente
         na minha memória devorada pelo azul
eu soube decifrar os teus jogos noturnos
indisfarçável entre as flores
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas
como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca
         palpita nos bulevares oxidados pela névoa
uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil
          de tua túnica
e um milhão de vaga-lumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
          se despedaçam contra os ninhos da Eternidade
é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado
          querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve
          estar como um talismã nos lábios de todos os meninos

Roberto Piva (São Paulo, 25 de setembro de 1937 – São Paulo, 3 de julho de 2010) foi um poeta brasileiro. In “Paranóia (Massao Ohno)”, 1963. Marcada pelo experimentalismo, múltiplos diálogos e alta qualidade das imagens poéticas, sua obra é uma das mais intensas da poesia brasileira contemporânea

O pequeno circo

Abrindo caminho a quadriga anda
Em branco manejo. O clown recebe
A bofetada pela multidão aplaudida
Bravo Paul Albert e François

Sobre seu caule içada a flor dança
Concentrada, o bufão a dominando
Entre laços de fogo, criando
Por terra uma imensa roseta.

Um inesperado trapezista
Ramón Gómez de la Serna
Desenrolando longas dobras premia
O preço, e sua felicidade assiste

O circo armado de Apollinaire
De Laurencin, d’Arthur Rimbaud
E de Seurat um grande seio
Mirífico círculo lunar

Vicente do Rego Monteiro (Recife, Pernambuco, 19 de dezembro de 1899 — 5 de junho de 1970) foi um pintor, desenhista, escultor, professor e poeta brasileiro. In “Agulha revista de cultura”, criada por Floriano Martins, número 122, novembro de 2018

De “O amor talvez seja o que do nada resta”

É poesia a silenciosa
distância entre a emoção
e o seu canto

Domingo

As aspirações mais exaltadas
em abismos profundos
separadas pela realidade do quotidiano

Os pequenos gestos repetidos do dia-a-dia
repetidos interminavelmente
repetidos automaticamente
repetidos necessariamente
repetidos resignadamente
repetidos cansativamente
repetidos exasperadamente
repetidos exaustivamente
repetidos inconscientemente

Repetido o beijo do “até logo”
é já um adeus ignorado

O acordar
o adormecer
deixam-nos em abismos profundos
separadas pela realidade do ontem hoje amanhã
das ambições antigas vivas futuras

Nesse domingo em que eras tu o meu amor

Ambição de agora agora
e já
para cada folha uma gota de orvalho
que o Sena amoroso, deslizando colhe sôfrego
enlaçando Paris apaixonado lento e insistente
apertado no mesmo abraço
a mulher desmaiada
ultrapassado do orgasmo o êxtase
atingida a luxúria exasperada e pura

Nesse Domingo em que eras tu o meu amor

Ambicão ambições
de carregar as roseiras de violetas
apanhadas às mãos cheias, não importa onde
às acácias mimosas vergar os galhos
de cerejas aos cachos
dos lírios do jardim delirantes
voarem para o cipreste sentinela à porta

Nesse Domingo em que eras tu o meu amor

os melros passeavam ousados e sem medo
atrevidos na relva
nos muros as trepadeiras, estremecendo
ao canto dos pássaros em mal de bem querer
floriam em pétalas de lua e aos de espuma
fitas de olhos em laços de afecto
colares de estrelas negras na verdade branca
secretos luxos da minha ideia
renegando o tempo

Nesse Domingo em que eras tu o meu amor

Era Domingo
outro Domingo
Domingos
segunda
terça
quarta
quinta
sexta-feira
sábados
repetidos
os pequenos gestos do dia-a-dia
repetidos intencionalmente
repetidos carinhosamente
repetidos tristemente
repetidos raivosamente
repetidos teimosamente
repetidos dolorosamente
repetidos passivamente
repetidos distraíramo-nos

e o beijo do “até logo”
foi adeus definitivo

Merícia de Lemos (Beira, Moçambique, 24 de abril de 1918 – Paris, França, 1996). In “Tangentes” e “12 Poemas”. Tirado do blog “Vicio da poesia” de Carlos Mendonça Lopes

Um poema de Chagall e o violinista

O violinista é o motivo mais icônico na sua obra. O artista criou várias versões do tema — como O Violinista (1913) e O Violinista Verde (1923-1924) —, representando o músico flutuando ou dançando sobre os telhados da sua vila natal de Vitebsk. O personagem não é apenas um músico, mas um símbolo central da cultura e da instabilidade da vida judaica no Leste Europeu. Ele acompanha os momentos cruciais da vida (nascimento, casamento e morte). A inspiração vem da tradição do Judaísmo Hassídico, que acreditava ser possível alcançar a comunhão com Deus através da música e da dança. Ao retratar o violinista acima dos telhados da aldeia, Chagall evoca a sua terra natal e a essência da alma humana.

Só é meu
O país que trago dentro da alma.
Entro nele sem passaporte
Como em minha casa.
Ele vê a minha tristeza
E a minha solidão.
Me acalanta.
Me cobre com uma pedra perfumada.
Dentro de mim florescem jardins.
Minhas flores são inventadas.
As ruas me pertencem
Mas não há casas nas ruas.
As casas foram destruídas desde a minha infância.
Os seus habitantes vagueiam no espaço
À procura de um lar.
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Instalam-se em minha alma.
Eis porque sorrio
Quando mal brilha o meu sol.
Ou choro
Como uma chuva leve
Na noite.
Houve tempo em que eu tinha duas cabeças.
Houve tempo em que essas duas caras
Se cobriam de um orvalho amoroso.
Se fundiam como o perfume de uma rosa.
Hoje em dia me parece
Que até quando recuo
Estou avançando
Para uma alta portada
Atrás da qual se estendem muralhas
Onde dormem trovões extintos
E relâmpagos partidos.
Só é meu
O mundo que trago dentro da alma.

Marc Chagall (Vitebsk, Império Russo, atualmente Bielorrússia, 6 de julho de 1887 — Saint-Paul-de-Vence, França, 28 de março de 1985) foi um pintor, ceramista e gravurista modernista judeu belaruso-francês. Pioneiro do modernismo, esteve associado à Escola de Paris e a diversas correntes como o cubismo, o expressionismo e o fauvismo. Criou obras em amplo espectro de formatos — pinturas, desenhos, ilustrações de livros, vitrais, cenários teatrais, cerâmicas, tapeçarias e gravuras. Neste poema encontramos a chave para pormenores recorrentes da sua pintura, como seja o par vagueando no espaço, as faces duplicadas, e por aí adiante. Mas o poema dá-nos mais: dá-nos o retrato de um homem a quem a vida expatriou nas circunstâncias materiais e morais difíceis das perseguições aos judeus na Rússia de finais do século XIX e início do século XX, e que ficaram como marca de água na sua pintura pela vida fora. Tradução de Manuel Bandeira (1886-1968) publicada em “Estrela da Vida Inteira”, 20ª edição, 30ª reimpressão, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2002

Pássaro e ovo: um ensaio-sonho dedicado a Rubem Valentim

Rubem Valentim (Salvador, Bahia, 1922 – São Paulo, 1991) / Rubem Valentim (Salvador, Bahia, 1922 – São Paulo, 1991) / Artista seminal para entendermos a História da Arte Brasileira, Rubem Valentim encontra na ancestralidade africana e no ativismo negro seus pontos de partida. Baiano, foi pintor autodidata, gravador e escultor, nos apresentando uma linguagem particular, analisada para além da questão geométrica que permeia sua obra, como a abstração geométrica, o construtivismo e o concretismo. Em sua vasta produção, que compreende pinturas, gravuras, serigrafias, totens e esculturas, observamos como o sincretismo religioso, as questões políticas e sociais brasileiras influenciaram seu trabalho. O início de sua produção compreende a década de 1940. Formou-se em jornalismo pela Universidade da Bahia em 1953. Tem obras em acervos de museus e instituições culturais, com participação em importantes exposições individuais e coletivas. (Site: Instituto Rubem Valentim).

” Na medida em que a luz e a sombra dançam sobre os mistérios, o pássaro liberto e selvagem adentra, discreto e distinto, o templo. Sobrevoa e observa os altares. Um vôo solene, circular e sem ruídos. Ele está em movimento e na altura certa de ser sintético com o sagrado, de refletir sobre linhas e curvas e cores que se tornam disformes pela fé humana, mas que sob seus olhos, que se acostumaram com os grafismos terrestres, e sob suas asas que desenham as linhas de seu vôo, são apenas tramas do espírito, organizadas complexamente: contínuas composições emblemáticas. O altar se construía como um encanto planificado. Eu disse a ele, sem saber se ele escutaria: — Rubem, eu consigo ver nas formas os altares. “

Yhuri Cruz (Rio de Janeiro, 1991) é artista visual e escritor, graduado em Ciência Política (UNIRIO) e pós-graduado em Jornalismo cultural (UERJ). Trabalha com questões anticoloniais e raciais, promovendo a intersecção entre sua herança ética e estética familiar e as esferas institucionais e transgressoras do campo artístico. O ensaio-sonho “Pássaro e Ovo” é um texto comissionado pela Collección Patrícia Phelps de Cisneros para o projeto “Rotas Alternativas” com curadoria de Bruno Pinheiro e Horacio Ramos Cerna. 2021 | Editado em 2022