É poesia a silenciosa
distância entre a emoção
e o seu canto
…
Domingo
As aspirações mais exaltadas
em abismos profundos
separadas pela realidade do quotidiano
Os pequenos gestos repetidos do dia-a-dia
repetidos interminavelmente
repetidos automaticamente
repetidos necessariamente
repetidos resignadamente
repetidos cansativamente
repetidos exasperadamente
repetidos exaustivamente
repetidos inconscientemente
Repetido o beijo do “até logo”
é já um adeus ignorado
O acordar
o adormecer
deixam-nos em abismos profundos
separadas pela realidade do ontem hoje amanhã
das ambições antigas vivas futuras
Nesse domingo em que eras tu o meu amor
Ambição de agora agora
e já
para cada folha uma gota de orvalho
que o Sena amoroso, deslizando colhe sôfrego
enlaçando Paris apaixonado lento e insistente
apertado no mesmo abraço
a mulher desmaiada
ultrapassado do orgasmo o êxtase
atingida a luxúria exasperada e pura
Nesse Domingo em que eras tu o meu amor
Ambicão ambições
de carregar as roseiras de violetas
apanhadas às mãos cheias, não importa onde
às acácias mimosas vergar os galhos
de cerejas aos cachos
dos lírios do jardim delirantes
voarem para o cipreste sentinela à porta
Nesse Domingo em que eras tu o meu amor
os melros passeavam ousados e sem medo
atrevidos na relva
nos muros as trepadeiras, estremecendo
ao canto dos pássaros em mal de bem querer
floriam em pétalas de lua e aos de espuma
fitas de olhos em laços de afecto
colares de estrelas negras na verdade branca
secretos luxos da minha ideia
renegando o tempo
Nesse Domingo em que eras tu o meu amor
Era Domingo
outro Domingo
Domingos
segunda
terça
quarta
quinta
sexta-feira
sábados
repetidos
os pequenos gestos do dia-a-dia
repetidos intencionalmente
repetidos carinhosamente
repetidos tristemente
repetidos raivosamente
repetidos teimosamente
repetidos dolorosamente
repetidos passivamente
repetidos distraíramo-nos
e o beijo do “até logo”
foi adeus definitivo
Merícia de Lemos (Beira, Moçambique, 24 de abril de 1918 – Paris, França, 1996). In “Tangentes” e “12 Poemas”. Tirado do blog “Vicio da poesia” de Carlos Mendonça Lopes