O carro da miséria (Trecho)

A Carlos Lacerda

I

O quê que vêm fazer pelos meus olhos tantos barcos
Lenços rompendo adeuses presentinhos
Charangas na terra-roxa das estações um grito
Um grito não um gruto
Que me faz esquecer a miséria do mundo pão pão…
O quê que vem fazer na minha boca um beijo
A mulher da Bolívia agarrando
Um penacho de viúvas restritas
Restritas não restrutas
Que o papagaio repassa e põe na vida…
Ah… caminhos caminhos caminhos errados de séculos…
Me sinto o Pai Tietê. Dos meus sovacos
Saem fantasmas bonitões pelos caminhos
Penetrando o esplendor falso da América.
Dei-vos minas de ouro vós me dais mineiros!
Glória a Cícero nas vendinhas alterosas
Com a penugem dos pensamentos sutis
Feito ninho de guaxe
O passado atrapalha os meus caminhos
Não sou daqui venho de outros destinos
Não sou mais eu nunca fui eu decerto
Aos pedaços me vim – eu caio! – aos pedaços disperso
Projetado em vitrais nos joelhos nas caiçaras
Nos Pireneus em pororoca prodigiosa
Rompe a consciência nítida: EU TUDOAMO.
Ora vengam los zabumbas
Tudoamarei! Morena eu te tudoamo!
Destino pulha alma que bem cantaste
Maxixa agora samba o coco
E te enlambuza na miséria nacionar.

Mário de Andrade (São Paulo, 9 de outubro de 1893 — São Paulo, 25 de fevereiro de 1945)

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 18 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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