A noite
Eu vou esplendida e calma
Da luz no immenso diluvio!
Meu seio tornou-se effluvio,
O effluvio tornou-se em alma…
Dos astros o sorvedoiro,
Profundamente arqueado,
É como um cedro vergado
Ao peso dos fructos de oiro.
Dormem os monstros e as feras
Ao pé dos lyrios suaves;
Descanta a luz das esferas,
Rebrilha o canto das aves.
A lua, pastor bemdito,
Com seu rebanho de estrellas,
Vae vendo se alguma d’ellas
Se perde pelo infinito.
Sonha a flôr, lampeja a vaga…
Alma, astro, pensamento,
Tudo se abysma e se alaga
No grande deslumbramento!
De Deus ao cantico eterno,
Abrem-se as portas do inferno,
Abre-se o mar da harmonia!
Abílio Manuel Guerra Junqueiro, conhecido por Guerra Junqueiro (Freixo de Espada à Cinta, Portugal, 15 de setembro de 1850 – Santa Isabel, Lisboa, Portugal, 7 de julho de 1923) foi alto funcionário administrativo, político, deputado, jornalista, escritor e poeta português. In “A morte de D. João”, Lisboa: Parceria Antonio Maria Pereira Livraria Editora, 9ª edição, 1914