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Se eu capto dos sentidos o sentido,
Sentir já tem sentido antes que eu sinta.
Se ouço, ouviu o Ouvir antes do ouvido.
Se vejo, o Ver avista a prévia vista.
Em parte sou a Alma, em parte eu mesmo –
sou Alma nesse todo em mim presente,
e eu, a espoliada parte, cujo senso
engana mas ainda me pertence.
O resto é ver sentidos nessa imagem,
que vem para explicar e passa, em vão,
qual mensageiro imita da mensagem
O aspecto e não explica a explicação,
como se a chave de carta secreta
achássemos escrita em língua incerta.
XXXII
When I have sense of what to sense appears,
Sense is sense ere ’tis mine or mine in me is.
When I hear, Hearing, ere I do hear, hears.
When I see, before me abstract Seeing sees.
I am part Soul part I in all I touch –
Soul by that part I hold in common with all;
And I the spoiled part, that doth make sense such
As I can err by it and my sense mine call.
The rest is wondering what these thoughts may mean,
That come to ex´lain and suddenly are gone,
Like messengers that mock the message mien,
Explaining all but the explanation;
As if we a ciphered letter’s cipher hit
And find it in an unknown language writ.
Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — Lisboa, Portugal, 30 de novembro de 1935). In “35 sonnets”. Tradução Philadelpho Menezes. (Edição bilíngue). São Paulo: Arte Pau-Brasil Livraria e Editora – Seção achados & perdidos, 1988