Carta a Gaspar Simões
Apartado 147
Lisboa, 28 de junho de 1930
Meu querido camarada:
Como de meu costume, escrevo-lhe a máquina, mas assim lê-se. Teria gostado de ter falado mais consigo e com o José Régio quando tive a alegria de os ver atualmente; mas a pressa não deixou à ocasião mais que o privilégio da oportunidade. Digo o que lhes disse. Vou preparar, pormenorizadamente, o texto do primeiro volume — o dos poemas — das obras do Mário de Sá-Carneiro. Não foi só o caso, que lhes contei, de eu não ter encontrado durante algum tempo o livro manuscrito dos Indícios de Ouro; desejo confrontar esse texto com os vários textos parciais, que possuo em cartas do Sá-Carneiro, que me enviava de Paris os poemas à medida que os escrevia. Já fiz a busca das cartas, e já tenho quase todos os duplicados dos últimos poemas (só dos últimos é que se trata neste escrúpulo). Conto ter tudo pronto para, durante julho, passar a máquina o volume de poemas em seu conjunto limpo. Espero levá-los a crer na existência extra-religiosa do milagre, pelo cumprimento desta minha promessa.
Há, também, o caso da minha colaboração para Presença. Repito que lhes disse: o fato de eu não enviar colaboração constante não significa nada que alimente o raciocínio. São coisas entre mim e mim. Nunca vocês julguem, ou entrejulguem, que tenho qualquer razão para não enviar colaboração. É tão fácil supor atitudes e quem não é súdito dessas desconformidades que tenho sempre receio do que se pense, embora nunca tenha receio do que se pensa.
Quando se publica o 27 da Presença? Desejo enviar um triunfais do Álvaro de Campos e mais uma coisa de meu. Pergunto isto porque não sei se vocês suspendem de agora até Outubro, ou se prosseguem, quand même, nos meses débeis. Acabo de receber — acabo de receber literalmente — o número 26 de Presença, e por ele, e por coisas anexas mentalmente a ele, me ocorre pedir-lhe algumas informações que a minha curiosidade, me solicita.
(1) O que foi o “manifesto a rir” que vocês publicaram a desrespeito da homenagem ao Antônio Correia de Oliveira? Gostava que vocês me mandassem esses escritos, por episódicos que os considere, sempre que os produzam e publiquem. Gostava que vocês se lembrassem sempre mais ativamente de mim do que eu me lembro ativamente das outras pessoas, embora esteja abundantemente elas em alma. Paguem-me o mal aparente com o bem inteiro!
(2) Tinha muito empenho em conhecer o texto da conferência que V. fez no Salão dos Independentes. Supus, não sei com que fundamento instintivo, que ela viesse reproduzida neste número (o 26) de Presença. Vejo que, com sempre que tenho palpites, me enganei. V. tenciona publicar em breve essa conferência?
(3) O que vem a ser o conteúdo de dentro de um manifesto, assinado por três dos rapazes vossos amigos e colaboradores, de que me deram um exemplar na Livraria Portugália? Tenho a noção de que a explicação deve estar no verso do manifesto; mas o verso está em branco.
A este último respeito, uma coisa me ocorre, mas não sei se me ocorre certa, porque não sei se haverá qualquer relação. Recebi, como você me disse que receberia, o livro Rampa do Adolfo Rocha. Passados uns dias — mais do que deveria ser — escrevi-lhe uma carta agradecendo o livro e dando, resumidamente, uma opinião. Como escrevi à pressa, para não demorar mais a resposta e o agradecimento, transferi a redação para o Sr. Engenheiro Álvaro de Campos, cujo talento para a concisão em muito sobreleva ao meu. O resumo da minha opinião, de cuja expressão o citado engenheiro se encarregou, é de que o livro é interessante (é, realmente, muito interessante) como sensibilidade, mas imperfeito e incompleto como uso dela; e é o uso da sensibilidade, e não a própria sensibilidade, que vale em arte. Não deixei de ser elogioso, até onde pude sê-lo; para além de onde podia sê-lo, confesso que o não fui.
Recebi, pouco depois, uma carta do Adolfo Rocha, que me deixou, durante um quarto de hora, perplexo sobre se deveria ou não responder. A carta é de alguém que se ofendeu na quarta dimensão. Não é bem áspera, nem é propriamente insolente, mas (a) intima-me a explicar a minha carta anterior, (b) diz que a minha opinião é a mais desinteressante que ele recebeu a respeito do livro dele, (c) explica, em diversos ângulos obtusos, que os intelectuais são ridículos e que a era dos Mestres já passou.
A carta não tinha, realmente, resposta necessária; achei pois melhor não responder. Que diabo responderia? Em primeiro lugar,é indecente aceitar intimações em matéria extrajudicial. Em segundo lugar, eu não pretendera entrar num concurso de opiniões interessantes, Engenheiro Álvaro de Campos se servira em meu nome; e isso me colocaria numa situação de prosa ainda mais intelectual e ainda mais de Mestre (com maiúscula) do que a anterior. Desisti. Paretere et abstine, recomendava os Estóicos.
Abraço-o afetuosamente o
camarada admirador e grato,
Fernando Pessoa
P. S. — Que quer dizer o nome “Vasco” de uma revista que se publica em Marselha?
Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — Lisboa, Portugal, 30 de novembro de 1935). In “Obras em prosa – Volume único”. Biblioteca Luso-Brasileira – Série Portuguesa. Organização, introdução e notas de Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986
Que maravilha, Matosinho! Somente um blog como o seu para nos mostrar escritas como essa, onde personagens da nossa cultura desfilam seus sentimentos com a franqueza inerente aos poetas. Sucesso em seu empreendimento. Nós, leitores atentos, precisamos nos alimentar de informacões como essas, principalmente nesses tempos de fakes e notícias inqualificáveis. Parabéns novamente!