Toma-me, ó Noite Eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho… Eu sou um Rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei,
E meu ceptro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas dum tinir tão fútil –
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a Realeza, corpo e alma,
E regressei à Noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.
Nota: Poema transcrito por Pessoa em carta escrita à Mário Beirão, intitulada “Crise psíquica”, em Lisboa, Rua Passos Manuel , 24, 3º. E, em 1 de fevereiro de 1913.
Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — Lisboa, Portugal, 30 de novembro de 1935). In “Obras em prosa – Volume único”. Biblioteca Luso-Brasileira – Série Portuguesa. Organização, introdução e notas de Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986