Testamento

Hoje, a espreita
de meu adversário,

eu,
que também fui menino
e persegui os passarinhos,

para pô-los no bolso da camisa, confiante
nas asas que abririam no meu sangue,

confesso
não só que pequei por palavras e obras,
por esperas e sombras,

que retorci o meu sonho,
ao aceitar ser enganosa

a plumagem dos cisnes
e as rosas das modinhas.

Confesso que errei, na ilusão
de fazer limpa a vida.

E só não a reduzi a ossos secos
sobre um jardim de areia,

porque aprendi, adulto,
nos livros de criança

que a morte nos persegue
vestida de beleza.

Fiquei por isso
com a mão no húmus, por alguns instantes,

raspei do tacho o resto de azinhavre
e dobrei a amargura
como se dobra um lenço,

como se fora limpo, ainda que com restos
de escarro e despedida.

Separei para mim
o que nesta partilha

entre a infância infinita
e o que são os meus dias

eram sombras de flores
e o charco florido.

(Não mais, não mais um só aceno
a quem saiu do agora para fugir do tempo,

e se afasta da páscoa, e se cala, cantando
para dentro o seu medo

do que seria a vida,
mas é só o avesso

da vida que não pede,
como se fosse humildade,

a quem lhe dá os naipes
a carta mais pequena.)

Mas ia alta a pandorga. E novamente
a azenha das garças se movia.

E eu,
que também fui velho
e sonhei com os passarinhos

e os quis bem aqui,
entre a pele e a camisa,

ou a bicar na janela o farelo e o alpiste,
fui tirando dos bolsos o pião, este rolo

de barbante encardido, esta ninfa exilada
entre oxuns, na ribeira,

estas bolas de gude, este pranto, este beijo,
a minha mãe sorrindo no balanço da rede,
a minha bem-amada escovando os cabelos,
e este carretel, e esta bala de menta,
e o aceno de adeus. Tudo isto
vos deixo.

Alberto da Costa e Silva (São Paulo, 12 de maio de 1931 – Rio de Janeiro, 26 de novembro de 2023). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 18 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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