Sob a pedra

Não, nenhum misterio muda,
se em terra não for cortado.
E se é cortada a penumbra
em fatias, tal compota.
só é do verso o que a chuva
ao escorrer, não esgota.
Afinal, pela República,
de Platão, ou esta outra,
os poetas perdem túnica,
sapatos, calças, o corpo.
Quando, porém, os expulsam,
ou ao seu verso, é tão lúgubre
o percurso do comboio
da alma fora da urbe.
E dirão depois, se mortos,
que lhes devem douto estudo,
estátua, ruas e nuvens.
fundação, talvez um curso.
Se destratam ou esqueceram
os seus poemas votivos,
os tomarão por modelos,
descobrirão seus arquivos
e a nudez do que eles mesmos
não editaram no apuro
ou no respeito aos leitores.
Mesmo que por eles chores,
não, jamais terão sossego
sob a pedra, esses defuntos.

Carlos Nejar (Porto Alegre , Rio Grande do Sul, 11 de janeiro de 1939). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 18 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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