Não, nenhum misterio muda,
se em terra não for cortado.
E se é cortada a penumbra
em fatias, tal compota.
só é do verso o que a chuva
ao escorrer, não esgota.
Afinal, pela República,
de Platão, ou esta outra,
os poetas perdem túnica,
sapatos, calças, o corpo.
Quando, porém, os expulsam,
ou ao seu verso, é tão lúgubre
o percurso do comboio
da alma fora da urbe.
E dirão depois, se mortos,
que lhes devem douto estudo,
estátua, ruas e nuvens.
fundação, talvez um curso.
Se destratam ou esqueceram
os seus poemas votivos,
os tomarão por modelos,
descobrirão seus arquivos
e a nudez do que eles mesmos
não editaram no apuro
ou no respeito aos leitores.
Mesmo que por eles chores,
não, jamais terão sossego
sob a pedra, esses defuntos.
Carlos Nejar (Porto Alegre , Rio Grande do Sul, 11 de janeiro de 1939). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999