Aviso aos navegantes
A Gloriosa faz trinta anos em 1994. A palavra “gloriosa”, usada com ironia pelos adversários, virou rótulo sério dos que, em 1964, derrubaram o presidente João Goulart. É como gay, eufemismo (jocoso) de efeminado, que foi assumido por quem é. Desses trapos bandeiras são feitas.
Pouca gente no Brasil era adulta, trinta anos atrás. Se convencionou que adulto é ter 21 anos, maioridade. Ou seja, adulto na época hoje teria média de cinquenta anos. Claro que há, circulando forte e sacudida, gente dessa idade para cima. Mas é minoria no Brasil. Razões várias. O que mais se vê é o pessoal na faixa dos vinte ou trinta anos; e os de idade intermédia, quarenta anos, que eram crianças em 1964, já parecem esquecidos do pouco que então perceberam.
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Música das estrelas, música da terra
Nos intervalos de banho, preparativos, beliscadas de comida, telefonemas etc., antes que a noite se tornasse madura para procurar os amigos e o prazer, ouvi naqueles anos todos, em discos ou no rádio, tudo o que Bach, Mozart e Beethoven haviam composto. Ainda não tinha descoberto, ou melhor, não me sentia particularmente atraído por Wagner, paixão futura. Debussy e Ravel eram para mim mais um instrumento do incomparável Walter Gieseking ao piano. Fiquei profundamente chocado ao saber que ele vestira a camisa da SA nazista. Certamente para agradar, por falta de caráter, e não por ideologia, pois quem tira de Debussy e Ravel aqueles sons nada tem em comum com as brutalidades dos alemães dos 1930 e 1940.
Não tenho educação formal em música. Não aprendi a ler partituras, como Bernard Shaw, a quem o crítico A. B. Walker encontrou, no Museu Britânico, estudando alternadamente O capital, de Marx, e a partitura de Tristão e Isolda, de Wagner. Como, de resto, Marx explicaria o priapicídio de Tristão por Isolda? Sim, Tristão morre afogado nas pudendas de Isolda, a que não pode resistir, traindo sua família, sua honra de cavaleiro, a si próprio, enlouquecendo com um desejo que só faz crescer e cuja única saída é a morte. Isolda preside sobre o seu desfecho, ninando-o com uma canção de amor e morte (Liebestod). A que aberração burguesa, ou aristocrática, Marx atribuiria esse destino? Nem convém pensar. Há uma insolência irritante no esplendor dessa música, como na carta cheia de vanglória que Wagner enviou a Liszt quando completou a ópera (apertado por três mulheres, de que queria se esconder), mas nos rendemos, apesar de tudo.
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Paulo Francis, pseudônimo de Franz Paul Trannin da Matta Heilborn (Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1930 – Nova Iorque, Estados Unidos, 4 de fevereiro de 1997). Esse jornalista e crítico era conhecido por sua personalidade polêmica, crítica e satírica, tornando o nome “Paulo Francis” uma das marcas mais influentes do jornalismo brasileiro. Trabalhou na Folha de S. Paulo por 15 anos (1975–1990) e notabilizou-se por suas colunas diretas de Nova York, abordando política internacional com um estilo ácido e polêmico, consolidando-se como uma das vozes mais marcantes do jornal. In “Trinta anos esta noite: 1964, o que vi e vivi”. São Paulo: Companhia das Letras, 1994