Cesar Lima: Presente das águas e Viva a São Benedito

Cesar Lima é natural de Cariacica-ES. Artista plástico autodidata, onde encontrou no naïf o poder de expressar sua cultura local, história e costumes.

A beleza e o misticismo do popular

Certa vez Djanira da Mota e Silva disse: “Posso ser ingênua, mas minha pintura não”. Afirmou isso num contexto de pergunta sobre a ingenuidade supostamente presente na vertente das artes plásticas que se convencionou chamar de arte naïf. Essa máxima produzida por Djanira se aplica à Cesar Lima, com o reparo de que ingenuidade não há nem em sua obras, tampouco no próprio artista. O estudo cauteloso da pesquisa de Cesar Lima, que resulta nas obras desta exposição, revela identidade visual marcante. Ao se ver, sabe-se tratar de obra do artista.

Notável a ornamentação delicada nos trajes da série dos santos, que parece sair das mãos de uma cuidadosa costureira. O artista rebusca no Barroco inspiração ornamental para colocar no centro da discussão a reivindicação e presença da religiosidade de matriz africana “sobrepondo-as” às imagens tradicionais do catolicismo.Chama-se a atenção, por exemplo, na execução da Santa Efigênia que se encontra nesta mostra. Santa protetora das pretas e pretos, que ocupa em suas mãos uma igreja em chamas. Revela o não esquecimento da violência do processo de colonização e escravização que marcam de forma indelével a história de construção das sociedades ocidentais, notadamente a brasileira. Nesse sentido, a decolonialidade emerge propositalmente – ou não – nos eventos e manifestações populares (congo, ticumbi, procissões etc) que Cesar Lima não apenas pinta, mas vive.

O consagrado artista contemporâneo Carlos Vergara, em entrevista concedida para o documentário “Dunas do Barato” (2017), faz honesta colocação: “O que eu produzo não sai do nada, da minha genialidade. Sai dum caldeirão onde eu tô envolvido”. A pesquisa de Cesar Lima possui relação direta com sua vivência, seja na participação em movimentos tradicionais da Igreja Católica, seja quando professa, simultaneamente, sua espiritualidade no Candomblé. A defesa dessa cultura, portanto, não resulta apenas do professar de sua fé, mas também por suas telas.

Entrelaçado à religiosidade, nota-se a presença do capixabismo. Cultura rica, porém pouco representada nas artes plásticas. Cesar faz às vezes de trazê-la com força ao cenário, por meio da arte naïf. Eventos populares como o ticumbi (manifestação afro-brasileira que mistura ritual católico com o misticismo africano) só se vê na região do Vale do Cricaré, em São Mateus-ES, em Conceição da Barra-ES e, também, nas obras de Cesar Lima.

Cesar não pinta necessariamente o que vê. Afinal, não se trata de um impressionista. Ele pinta o que vive, o que sente, o que transpira. Reivindica culturas sabidamente esteriotipadas e historicamente diminuídas. E o faz com a alegria dos circos e das festas de terreiro que, pelas cores vivas de sua paleta, transmite a beleza singular dessas manifestações.

Bem vindo ao mundo místico da religiosidade afro-brasileira e, a um só tempo, da beleza multicolorida das manifestações populares.

Texto tirado do folheto de sua exposição de Ouro Preto-MG que acontece desde o dia 19 de janeiro de 2023 e intitula-se “A beleza e o misticismo do popular” e o curador e autor do texto é o colecionador Hugo Fonseca. A exposição está disponível para visitação no Anexo do Museu da Inconfidência, de terça a domingo, das 10h às 18h, até 5 de março. A entrada é gratuita.

Contatos:
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Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 18 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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